—Ó meu amo!—exclamou Bernardo—vossa mercê falla serio ao seu velho criado?!

—A ceia deu-te a soldada de tua ama e a casa em que me abrigas d'ella é. Tu vendes-me parte do que é teu.

—Não o intendo, senhor.

—Deixa-me encostar a cabeça, que ha quatro noutes que não durmo e hei medo de insandecer. Antes de romper a manhã, acorda-me.

Pouco depois, Domingos Leite, sopitado em lethargia de febre, sonhava alto, pronunciando vozes que gelavam de pavor o criado. Eram apostrophes em que o nome suavissimo da filha se envolvia com expressões indecentes e epithetos que entram sem rebuço nos alcouces. De mistura, estallavam ameaças de sangue, e a palavra rei soava bem distincta por entre as objurgatorias que a precipitação tornava inintelligiveis.

O escudeiro, mais supersticioso em sonhos que esperto em tirar inferencias da vida real, compoz com as phrases soltas que ouviu a desgraçada situação de seu amo. Chorou então copiosamente ajoelhado á beira do catre.

Á hora em que devia chamal-o, o amo adormecera serenamente e a febre remittira. Bernardo pediu conselho ao seu retábulo do Senhor dos Passos, sobre deixal-o descançar ou espertal-o d'aquelle tão curto dormir. Figurou-se-lhe que a vontade divina lhe inspirava que deixasse o infeliz restaurar forças para succumbir depois de muitas e acerbas batalhas.

Era já nado o sol havia muito, quando Domingos Leite espertou. Bernardo, entre receios e lagrimas, disse-lhe que o não chamara, porque á hora aprazada adormecera seu amo, depois de arder em febre agitadamente.

—Mas porque choras tu?—perguntou Domingos Leite.

—Porque choro, senhor!... Ai! quem o viu, quem o viu, meu querido senhor!