—Minha prima esteve no convento das commendadeiras!?

Maria abriu a gaveta d'uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta, recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a predispunha contra o enlace de seu filho e uma douda furiosa, dizia a carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor, desde a entrada e tentativa de fuga, até ás contorsões de possessa que a fizeram suppôr demente.

Alvaro dobrou a carta, e encostou a fronte á mão para esconder de sua mãe as lagrimas.

—Crês no arrependimento de Leonor?—continuou a mãe serena e affavel—É possível; mas o segredo que teu tio escondeu de nós, e o ar de candura com que ella se tem offerecido á nossa estima, qual provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se, confessando-se. Estas palavras são uma hypocrisia, e o beijo d'essa menina é...

Maria da Gloria susteve a palavra que era a própria, e córou-a assim:

—É uma liberdade que deve magoar um coração delicado como o teu.

Seguiram-se alguns segundos de silencio, e, após elles, Maria continuou com vehemencia e magestade:

—Alvaro! tu és um homem. A tua dor é questão mais de honra que de coração. Eu tenho ciumes dos bons sentimentos da tua alma, e, por vontade minha, hei-de cedel-a unicamente a quem te chamar «esposo» com o extremoso amor com que te eu chamo «filho». Se Deus não quer que as minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor. Não te lanço da minha alma; mas não contarei mais com a tua. A minha vida não alcançará a tua desgraça. Morrerei a tempo de ir pedir a Deus que te dê forças para ella.

Alvaro ergueu-se de golpe, e apertou nos braços a mãe lavada em lagrimas.

—Não me falle assim, minha mãe!—exclamou elle—Perdeu a confiança no poder da sua vontade?! Eu não lhe disse que casava com Leonor, nem mesmo lhe disse que a amava com paixão... Deixe-me ser para ella o que minha mãe uma vez me disse que eu fosse:—amigo d'ella, quando a visse desgraçada...