—Seja assim, filho!—disse Maria com desafogo e alegria—seja assim, converte em sentimentos de bom irmão esse amor, cuja profundeza tu não sabes sondar ainda... Ainda mais te cede a tua boa mãe... Escuta, meu querido Alvaro... Fazes-me a vontade?... Olha... estuda dous annos o caracter de Leonor, espera-lhe o desenvolvimento que ella ha-de ter n'este praso; e, se, decorridos dous annos, a vires igual, toda absorvida na esperança de ser tua, e tão amante como virtuosa, dá-m'a como filha, e eu do amor que te tenho farei um segundo coração para lhe dar a ella.

Desanuviou-se por momentos a fronte do moço; mas a tempestade lá estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a banca, e contra a exactidão d'aquella historia é que o praso do estudo não podia prevalecer.

Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar seu sobrinho para festejar os vinte annos de Leonor. Não trocaram palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou differença.

Alvaro é que notou magreza e pallidez no rosto da prima. A natureza tem ás vezes a caprichosa benevolencia de entrar n'estas comedias humanas. Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de certo é, não ter parte o espirito nas contingencias do ar atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão phantasiosa, que quer ver, nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si mesmo com as presas da sua propria paixão.

Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco d'esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira? Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento e as do amor sem esperança. Se, porém, ia no exordio d'uma falla carinhosa, assalteavam-lhe a lembrança as palavras d'aquella carta da commendadeira, e o coração retrahia-se-lhe sobre si, como se o sangue congelasse subito.

Estavam sósinhos na janella de uma saleta. Leonor apoiara a testa na mão e o braço no peitoril. Alvaro tinha os olhos no céo estrellado, e ouvidos e coração banhados das ondas de harmonia que vinham das salas.

—Por que me não amas tu?!—disse Leonor encarando repentinamente no primo.

—Que fizeste tu no convento das commendadeiras, Leonor?—respondeu serenamente Alvaro.

—Expiei um desvario do espirito em que o coração não tinha parte alguma; obedeci á fatalidade, e abrandei-a com as agonias que padeci. Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta educação que me deram. Paguei amargamente a culpa de perder minha mãe aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras, Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta, responde-lhe pela minha bôca.

Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura: