—Tu não amavas aquelle homem, Leonor?
—Não o amava; via n'elle a minha desgraça; obedecia-lhe á fascinação; sentia de antemão o prazer de me sentir despedaçar na queda ao meu abysmo. Poupa-me, Alvaro; não festejes assim os meus annos. Tenho vinte; e, se podesses vêr a minha alma, tão extenuada, tão envelhecida, chorarias, e dirias ás virtuosas do convento que o seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem chora... Vamos para a sala, que é tempo.
Alvaro ficou n'aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois, áquella janella, quando o eu contemplava na outra das ruinas. Era alli!... que tristeza para quem tiver de Deus ou da desgraça o condão de compadecer-se nas dores alheias!
«Não serão precisos dous annos para te estudar o lento supplicio da tua purificação, minha pobre Leonor!» Isto dizia Alvaro em si, quando Sebastião de Brito o chamou para pedir á inflexivel Leonor que dançasse um minuete da corte. Alvaro pediu, e foi obedecido com um ar de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se junto á prima, e disse-lhe:
—Amas minha mãe, Leonor?
—Affiz-me a julgai-a tambem minha: queria poder... e cuidei que devia chamar-lhe mãe.
—Has-de chamar, Leonor... Por que não vaes vêl-a?! por que lhe não contas esses desgraçados desvarios, que se deram durante a nossa ausencia?!
—Quiz contar-lh'os, antes que a sociedade lh'os dissesse; mas a minha confissão devia ser do coração, e esse não tinha que confessar, e, se tivesse, só a ti se confessaria. Além de que, tua mãe deve ter vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo.
—A mãe não tem vaidade da sua virtude, prima!—redarguiu mansamente Alvaro—Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que tu o conseguirás, se quizeres. Vai ámanhã vêr-nos, conversa muito com ella, e não te molestes, se a vires menos risonha que de seu costume, não?
—Irei lá ámanhã; mas não me peças o supplicio de relatar extravagancias, que me envergonham. Sei que tua mãe m'as perdoaria aos meus annos; sei-o porque ella é boa, e padeceu. Os felizes é que não perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade... E de mais...—continuou ella passando da brandura á irritação—Que crime foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra?