Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de sua prima. Era o natural colerico de Leonor superando os empeços do artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os espartilhos. Este accesso durou minutos, e tamanha força teve com ella que a obrigou a ir raivar sósinha no seu quarto, em quanto Alvaro, procurando o tio lhe dizia que a prima Leonor sahira de ao pé d'elle incommodada.

Voltou já outra, depois de meia hora, e explicou o accidente com dores de peito causadas pela compressão do collete.

Alvaro contou na manhã do dia seguinte estes acontecimentos a sua mãe, sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete.

Maria da Gloria respondeu a tudo n'estes termos breves e sêccos:

—Muito bem, meu filho. Principiaste os teus estudos: continua-os. Tens dous annos, e vagar para estudal-a.

Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava conta d'aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo as sabidas inconvenientes da natureza; e os reparos do moço desvaneciam-se. N'este longo intervallo, Sebastião de Brito fallou á cunhada na realisação do casamento, e esta decidiu-se pela vontade de seu filho: tão segura estava da palavra d'elle. O morgado, porém, infatigavel em desbaratar a casa, e forçado não tanto pelos credores como pela vocação do desperdicio, pediu dinheiro avultado á viuva, e obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a Leonor.

Em Março de 1832, foi Maria da Gloria com seu filho e Leonor a Vairão visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre a sepultura de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, e apresentar á prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria.

Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira, d'onde o duque de Bragança brevemente sahiria com uma expedição para desembarcar em Portugal. Alvaro, durante a narrativa, não desfitou os olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia. Interrogou-a particularmente, e recebeu como explicação uma casquinada de riso, com que o seu coração, absurdo como todos, se deu por satisfeito.

De volta de Vairão, dous mezes depois, Leonor e Alvaro subiram á collina dos arvoredos dos Olivaes, onde estão aquelles escabellos de pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um álamo para plantar, e, segundo elle, essa arvore era o symbolo da alliança eterna. Mal escolhida arvore, cuja folhagem tão movediça é! N'outro já mais entroncado talhou elle as duas letras: L. A. e dos sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as deixou pendentes dos braços tenros da arvore.

Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e coração. Chorou, e disse: