BYRON (O Corsario).
Um mez ao certo, depois da plantação do alamo symbolico de eterna alliança, e do entalhe das iniciaes, desembarcou no Mindelo a annunciada expedição do duque de Bragança. Miguel de Sotto-Mayor era um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e linhagem para occupar entre os homens de porte uma apreciação distincta, sendo que o facto do exilio por amor á legitimidade, depois dos carceres de S. Julião, lhe bastaria a merecel-a.
Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca chegariam ás mãos de Leonor, se as escrevesse. Apenas saltou em Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso ella estivesse fóra do convento. O enviado devia aventurar-se a entrar em Lisboa, e levar-lhe a nova ás commendadeiras. O habil confidente pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira desembarcar o exercito, e conseguiu entrar á presença do morgado e de sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala gesticulando, o hospede, que o applaudia, deixou cahir no regaço de Leonor a carta, e pronunciou subtilmente a palavra Sotto-Mayor.
A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada alegria e convulsões de louca.
Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua esperançosa posição e dos grandes destinos a que o chamavam os seus talentos. Se não era modesto, seria injusto acoimal-o de visionario. Capacidades somenos o igualavam no immoderado das ambições, e lograram realisal-as muito além do escopo em que punham o fito. Dizia, porém; elle que renunciava á gloria, se Leonor a não quinhoasse com elle, e que poria o peito ás primeiras balas dos inimigos, se a encontrasse infiel aos juramentos.
Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu coração tinha gemido até aquella hora. Louvava-se da sua constancia, attribuindo-a mais á dôce fatalidade que os aproximava, do que ás debeis forças de mulher. Pedia-lhe que a salvasse sem demora dos últimos assaltos do amor do primo e da ambição do pae. Sujeitava-se a fugir para o Porto, com qualquer pessoa da confiança de Sotto-Mayor, e ser sua esposa lá, como da alma o era desde a primeira vez que o vira.
O portador da nova, sem o menor empeço, entrou no Porto, e sahiu dias depois a nova commissão para os Olivaes, onde a anciedade de Leonor alongava as horas interminaveis. A resposta correspondeu á ancia. Na sahida da aldêa estavam as cavalgaduras, tomadas em povoação fóra da estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta, e planeara o momento da fuga.
Era no ultimo dia de Julho d'aquelle anno de 1832.
Alvaro Teixeira e sua mãe sahiram de Lisboa n'uma tarde de muita calma, e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um casal, que não via desde que fora enclausurada.
A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o morgado, se a cunhada não viesse, iria para Lisboa, curioso de saber se os rebeldes tinham sido espingardeados no Porto. Como, porém, Alvaro dissesse que se movia o exercito em direcção á cidade heroica, Sebastião de Brito esfregou as mãos, e disse que os malhados áquella hora de certo já tinham embarcado para salvarem as orelhas. Leonor intimidou-se, mas o seu brilhante futuro não lh'o empanou sequer uma sombra de desistencia.