Leonor não respondeu, e Alvaro proseguiu:

—Estás em extasis diante d'este formoso quadro, prima? Tens razão! Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem...

—Isto é bello!...—disse Leonor machinalmente, e ouviu, ou não ouviu o amor eloquente de Alvaro, que n'aquella noite fora mais que nunca eloquente; e amante.

Soaram os tres quartos depois das onze.

—Ó primo, disse Leonor inquieta, vaes tu buscar-me a minha capa de capuz?

—Vou; mas tens frio?

—Receio têl-o e não quero sahir d'aqui...

—É melhor irmos, vamos, prima...

—Não vamos: vai buscar a minha capa, sim?

Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor correu ao longo d'uma alea de acacias em direcção opposta. Da extrema d'este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da abertura d'um aqueducto uma pequena caixa, e um chapéu de velludo emplumado. D'alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena janella de umas poucas eminentes á estrada, e saltou, auxiliada por um homem que a esperava, e a quem entregou o cofre das joias de sua mãe. A poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada fugida.