—Juras-me que não vais a Porto-Alvo?
—Juro, dizia Molière.
—Mas lembra-te que Molière cahiu na scena moribundo, quando disse juro.
Achou Miguel de Sotto-Mayor engraçada a observação, e despediu-se de Leonor, beijando-a na testa.
Cavalgou, guiou o cavallo na direcção do Poço do Bispo, e, a grande distancia, retrocedeu por um atalho conhecido até sahir á estrada de Porto-Alvo.
Parou Miguel a distancia de meia legua, e reflectiu. «Se o morgado tivesse sido avisado, já eu teria a esta hora noticia da menor alteração. É verdade que o signal em duas noites alguma cousa póde significar; mas tambem é certo que o mesmo caso já se deu, sem significação alguma. Quem inventou o aviso foi o ciume de minha mulher.» Depois de tão seguro remate, Sotto-Mayor deu de esporas ao cavallo, e venceu o espaço em poucos minutos.
Antes d'elle avistar o palacio de Porto-Alvo, é de bom historiador dizer que o morgado, na madrugada do dia seguinte áquella noite do punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou a chave. Voltando, fechou tambem a porta de sua mulher, e não respondeu ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal novidade. As comidas eram ministradas a uma e outra, ás suas horas, por um homem estranho de má catadura, que não respondia a pergunta alguma. Esta situação durou dous dias, e durava ainda quando Miguel de Sotto-Mayor fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se avistava o signal.
Estacára o cavallo na chã, onde o brioso animal já sabia que descançava. Miguel afagava-lhe o pescoço, e dobrava-se sobre os ilhaes a examinar-lhe os violentos arquejos, quando, ao erguer a cabeça para examinar a um raio da lua o seu relogio, dous tiros simultaneos lhe vararam o peito. O cavallo atirou-se em galões impetuosos ribanceira abaixo, com o cavalleiro agarrado ás crinas. A poucos passos, as mãos do cadaver abriram-se, o corpo resvalou ao chão, mas foi de rojo, largo espaço, suspenso n'um dos estribos.
Ás tres horas da madrugada, os criados da casa dos Olivaes sentiram o estrepito das ferraduras nas lages do pateo, e sahiu o cavallariço a amantar e recolher, como de costume, o cavallo. Como não visse o amo, cuidou que elle havia já subido, como d'outras vezes, deixando o cavallo com as redeas ao pescoço; mas, relanceando casualmente os olhos sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias, bateu á porta, e disse para dentro que acontecera uma grande desgraça. Leonor saltou do leito, e desceu ao pateo a examinar o sangue do estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com os olhos esgazeados da demencia, e soltou estas pavorosas palavras:
—Fui eu que o matei!