D'alli em diante, o que ella dizia eram palavras sem nexo, e blasphemias, acompanhadas de medonhos tregeitos.

Sahiram os criados, uns na direcção do Poço do Bispo, outros na estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu amo.

Os segundos, a tres quartos de legua, ao voltar de uma charneca para um atalho pedregoso, acharam o cadaver de Miguel de Sotto-Mayor. A maceração e retalhado do rosto era tal, que escassamente lh'o reconheceram. Camisa e collete cheiravam ainda a queimados: os tiros tão á queima-roupa tinham sido apontados, que as mesmas buchas se lhe pegaram ao sangue empastado do peito.

Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para casa. Leonor não atinava a dar ordem alguma para o enterro de seu marido. A noticia levada a Lisboa, onde então estava Sebastião de Brito, chamou aos Olivaes algumas familias, a quem as desventuras de Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a justiça dos seus deveres. Foi a justiça ao local onde estava o morto, e lavrou o auto. Proseguiu na devassa; mas era tudo escuro e indecifravel. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral, estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso. Leonor, ao vêl-o, ergueu-se de golpe, apontou-o de perto, e exclamou:

—Foi este o assassino de meu marido.

O morgado abriu a bôca e os olhos, cruzou os braços, circumvagou a vista por todos, e perguntou:

—A infeliz acho que endoudeceu?... Pobre senhora!...

Os circumstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a tambem.

—Por que não está aqui a mulher que matou meu marido? Onde está a devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue?

Estas vociferações augmentavam as probabilidades da demencia.