APOC. 3. 18.

Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria da Gloria com ella. Era de vêr os assiduos desvelos com que as familias de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que a souberam restituida á graça da supposta millionaria Maria da Gloria. E, como fosse notorio e vulgar o amor de Alvaro a Leonor, já diziam os aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam espectaculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados de mostrarem do cadafalso á canalha, sedenta de escandalos, as melhores reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, n'uma, loja de capellista esta calumnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama, repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu ás afflicções da criada com um sorriso, e estas palavras:

—Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calumnia é que não mata a honra de ninguem.

Ficou Leonor com seu pae.

Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exacto o dizer que a purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a lançava de si:—a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insoffrida e furiosa na dôr, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe ás flôres do rosto a seiva que as alindava.

Em que pensava Leonor, n'aquella sua rapida mudança de vida? Parecia não pensar. Decorridos seis mezes, sahiu a pagar visitas em Lisboa, menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «bellas ruinas», fosse ella menos esquiva, e teria sobeja belleza, para acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar que hoje.

Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher, que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos, Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave tristeza da musica.

Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:

—A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não encontrarmos.

—E, todavia, meu filho—replicou a mãe—estás sempre perguntando-me se a mezada será sufficiente para o bem-estar de Leonor!...