—Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia. Agora fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem sabia que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.
—Explica-te, Leonor...—atalhou Maria da Gloria estarrecida de espanto.
—Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa vista para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração, teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me via descer para a miseria, na esperança d'elle ahi descer com alguns punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente, humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido, eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade, e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam «cynismo»; é aquillo que eu já disse—o despreso de mim propria. Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós. É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola, beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus. Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha, que os credores de certo não querem; irei lá viver.
Calou-se Leonor.
Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e disse:
—Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo», foge para mim que eu te abrirei os braços.
Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.
Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a necessidade d'um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava casar-se.
Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam sobre o mesmo motivo, disse:
—Esse homem julgará rica a prima Leonor?