—Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia dos seus parentes.
—Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta com o beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem...
—Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem?
—Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto no collegio, nos meus ultimos tempos.
Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo, professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim ao encargo, que recebera:
—Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é romantica, terceiro porque é romantica.»
—E porque é rica—atalhei eu.
—Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões...
—Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma sem-razão. D. Leonor é pobre.
—Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo!