Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos inconvenientes das suas parentas necessitadas.

—Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui vêr—redarguiu elle—e aquell'outro de ruinas tão poeticas; e aquellas duas quintas que se espreguiçam na margem do aurifero Tejo... que me diz o senhor a isto?

—Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &c., &c. Mas—conclui eu—as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu, prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres vezes romantica.

—Diz muito bem—acudiu elle:—o casamento ha-de fazer-se, quando eu for tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o meu caro mestre e amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo.

—Quer dizer...

—Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui estou ás ordens.

—Aqui tem o senhor Alvaro—continuou o professor de inglez—o que passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão da liberdade com que expuz fielmente o texto da nossa conversação.

Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do mestre de inglez, disse:

—Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor.

Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados. Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella: