—Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O cavalheiro de certo não falta.

—Oh! minha senhora!... quem quer faltar á sua propria dignidade!?

—E por que não diz «ao seu proprio coração...»?—retorquiu ella com despeitado sorriso.

—O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se atreve a entrar nos juizos do espirito...

Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou anciosa o dia seguinte.

—Vou responder—disse ella—cathegoricamente ás suas cartas. O pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas cartas, não é assim?

—Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?!

—Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?... Não lhe cause estranheza o estilo secco e desornado da pergunta... assim é preciso.

—Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa excellencia quanto a respeito. Acima d'estes dous sentimentos está o da amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia?

—Elucide-me...—atalhou Leonor—A sua linguagem é escura!