—Leonor—disse elle—bem me vês: vesti-me assim para a mim me vêr e convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma e as voluntarias mortificações do meu sacrificio. Este caminho é o das alegrias da virtude, por elle irei indo ao lado da sombra de minha mãe, até me identificar com a luz da sua gloria. Se errar o passo dificultoso, a santa pedirá por mim ao Pae compassivo dos que se levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha prima: os teus infortunios ganharam para sempre a dedicação, que a tua paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o morrer do coração. Tu é que me não desculparias a inutil crueza de te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por esconder. Lá vai tudo. Agora, perdão e paz. Nem lagrimas me dês ás cinzas da paixão desgraçada! Escuta, Leonor, tu tens nos Olivaes uma casa em ruinas. Venho-te pedir que m'a cedas para os dias todos da minha vida.
—A casa é tua, Alvaro; é teu tudo quanto o mundo chamava meu...
—Não sei se eram minhas as ruinas dos Olivaes, Leonor; sei que sinto prazer em pedir-t'as.
—E poderemos alli viver, Alvaro?—atalhou Leonor.
—Eu viverei.
—Tu! e eu não, meu primo?!
—Não, Leonor—respondeu o padre com um ar de firmeza, que não animava a ser contrariado—Ficas aqui, com as criadas de minha mãe, senhora d'estes nadas que pouco importam á tua triste existencia; mas o teu lugar é este onde recende ainda o perfume da mulher virtuosa, que nos levou a Deus a conta das nossas lagrimas.
—E queres que eu aqui fique, Alvaro? não poderei pedir-te que me deixes escolher outra residencia? Respeitarás, ou terás piedade do coração que t'a pede, do coração que não morreu ainda?
—Escolhe, Leonor; quererás voltar a Lisboa? queres antes viver na casa que lá temos?
—Não, meu primo. Dá-me uma cella n'um convento, e uma criada, que me sirva.