Contou o menino este caso á ama, e esta, profundamente magoada, disse-lhe em ar de reprehensão:

—Não lhe disse eu que não fizesse taes perguntas?

Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres, que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro era filho natural do capitalista, e póde ser que da propria criada, a quem elle chamava ama. Estas desconfianças não eram boas para serem communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre. O menino, porém, não fallava n'outra cousa, e instava por esclarecimentos, até que uma vez o mestre, mal assombrado, lhe disse:

—Estude, Alvaro; não lhe importe saber o que não lhe é necessario.

O alumno mais estudioso do collegio fora Alvaro até áquelle dia. Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em aproveitar o natural engenho. De repente, com igual admiração dos mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro; mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus condiscipulos.

Manoel Teixeira, informado d'isto, sentiu a tristeza do filho e deu medíocre apreço ao desgosto dos mestres, no tocante a estudo. O negociante não; queria que seu filho seguisse as letras, nem se gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua, morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n'esse tempo. Entrava n'isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles viam apertados, no dia immediato á noite do jogo, ou do baile, ou dos casamentos e natalicios da côrte.

Decorreram tres annos. Quiz Manoel Teixeira, n'este espaço de tempo, por muitas vezes tirar o filho do collegio, á conta de magreza, de fastio, de doença, e de mil causas que inventa um pae extremoso. Alvaro resistia á ternura paternal, pedindo que o deixasse estar no collegio, onde se affeiçoára ao seu quarto, aos seus mestres, e a alguns condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.

Tinha Alvaro já doze annos. Os tres ultimos, mal aproveitados nos livros, fructearam temporãos em discernimento e porte varonil. D'entre os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima pratica, relembravam aquella instancia de um, acerca de sua mãe, e a resposta enfadosa do outro. Notou, porém, o mestre que estas recordações traziam tristeza mais sombria para o alumno, e abstinha-se de revivel-as. Que montava isso, se Alvaro não podia esquecel-as, nem o mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!?

—O senhor Alvaro está homem no espirito;—disse-lhe um dia o seu affeiçoado mestre de inglez—vou dizer-lhe o que não quiz explicar á sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos ácerca de sua mãe. Presumi eu n'aquelle tempo que seu pae tinha alguma forte, ou pelo menos desculpavel, razão para não lhe dizer quem era sua mãe. Bem podia ser que o menino fosse filho de uma das criadas de seu pae, ou mesmo ainda de uma senhora, cuja reputação corresse risco de ser manchada. Creio que me comprehende...

—Manchada... por que?—disse Alvaro.