E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira uma como voz do céo que o mandava abrir a gaveta da escrivaninha.
A tremerem-lhe as mãos, abalançou-se o moço ao que nunca se atrevera a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.
—Será?—disse elle—«Senhora de rara formosura» me disse o mestre; e esta é tão formosa!...
Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse Alvaro ao pé da mysteriosa gaveta, com um retrato na mão, correu para junto d'elle, dizendo:
—Que está a vêr o menino?
—E de minha mãe este retrato?—respondeu elle sem turbação.
Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:
—É, é; mas, pelo amor de Deus, não esteja aqui, metta o retrato na gaveta, de modo que seu pae não dê fé. Venha, venha commigo, menino!
—Não vou,—disse elle com firmeza—n'esta gaveta é que está o segredo que a Eufemia não quer contar-me. Hei-de procurar entre estes papeis alguma carta de minha mãe.
Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d'aquella resposta.