João de Mattos recalcitrou ainda na opinião de que a justiça humana era a expressão da vontade divina; mas a freira redarguiu de força que o sobrinho não teve animo de contradizel-a, e meditou mais summaria traça a libertar Maria da Gloria, sem dependencia da vontade do marido.

A ponto estavam estas intenções de serem executadas, quando chegou a Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro. Soror Joanna, n'aquelles ultimos dias anteriores á fausta nova, raras horas sahira do coro. Ahi a viam como arrobada em oração mental, e tão fervoroso devia de ser o seu orar, que as lagrimas, nunca vistas no rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do coro. Ás vezes, em communidade, erguia a voz, clamando: «Peçam commigo a nosso Senhor Jesus Christo que manifeste o poder do seu braço n'uma obra de muita necessidade.» E as freiras, e Maria da Gloria com ellas, rezavam ferventemente.

Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em altas vozes de acção de graças, na presença de muitas testemunhas, que não souberam atinar com a causa d'aquella subitanea exaltação. Eu não affirmo isto; mas quero acredital-o para mim. A poesia do céo é esta. Não sei que hajam ahi outros incentivos que me chamem aos olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer ver chorar, e vibrar de não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza d'aquelles: faça-me acreditar, na existencia d'umas almas que vão entender-se com Deus por um raio resplendoroso de graça divina.

Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a sua mãe. Agora sabe que, no tom prophetico das palavras da santa, não ha que vêr com milagres. Aquelles acontecimentos vieram de seu, naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e o sobrinho. Per si mesma tem a virtude umas sahidas tão maravilhosas que não ha que dizer se as lançamos á conta de milagres, nós, os cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se veem, e se vão alumiando nas escuridades da vida, sempre tenebrosas para nós... Para mim, devia ter dito; porque, em verdade, não posso nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.

É tempo de voltarmos a Lisboa com Alvaro. Iremos; porém, vejamos, em quanto elle caminha chorando d'alma com saudades de sua mãe, e sorrindo ás esperanças que lhe dera a freira, os successos que tão triste resultado promettem á temeridade do bom filho.

Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos Olivaes Sebastião de Brito e Macedo, e sua filha Leonor, foram a Lisboa, e hospedaram-se em casa de Manoel Teixeira, irmão natural, como se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem.

Leonor era a destinada esposa de Alvaro, desde o berço. N'este enlace pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua ambição. A passo igual, enriquecia Manoel Teixeira, e alcançava-se Sebastião de Brito. Este encostava-se ao plano restaurador dos seus haveres; o outro gozava-se a cada nova hypotheca que o irmão fazia. Se lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de vingança com que um dia, infringida a palavra do morgado dos Olivaes, cortaria as esperanças cubiçosas de outro pretendente.

Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira disse que Alvaro estava no collegio, e que pedira um mez de solidão para se dar todo a traduzir uma obra. Sebastião de Brito mofou das canceiras litterarias de seu sobrinho, e disse que não queria philosophos nem poetas para genros. Censurou que Alvaro não tivesse ainda recebido lições de equitação, indispensaveis n'um mancebo que era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o pequeno apenas tinha doze annos, e era de compleição franzina para aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na familia dos Britos e Macedos passarem os varões do berço para a sella. Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.

No entanto, Leonor dizia que, a não vir o primo vêl-a, iria ella sósinha ao collegio, na carruagem do tio. Foi applaudida a galanteria da menina; e Sebastião de Brito, deixando-a ao irmão, foi visitar alguns primos e primas.

Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de surprehenderem Alvaro e trazerem-no comsigo. O professor de inglez é que foi o surprehendido.