Diz elle:
«Eu estava preparado para lêr algumas paginas bonitas e sentimentaes, occasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei logrado. Nenhum d'elles disse cousa que fizesse chorar, nem escassamente commover a gente. O author deixa perder as marés cheias de poesia. Aqui era que devia ostentar os thesouros do seu estilo lamuriante. Nem um aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido quatro apostrophes, com grande chuveiro de lagrimas. Era bello fazêl-o discorrer uma hora de joelhos aos pés da esposa, desfallecida de cinco em cinco minutos. Que ella perdoasse, isso sobre ser justo, era dramatico; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do coração, depois que as freiras todas chorassem em coro, e soror Joanna discorresse dilatadamente acerca do perdão das injurias. Além de que, nenhum desmaiou! O tocante era ir ella nos braços das esposas do Senhor para cima, e elle ficar cá fóra, senão sem sentidos, ao menos declamando um quarto de hora, e cahir a final extenuado nos braços dos amigos. Isso sim, era uma passagem que bastava á reputação da novella, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as cousas como ellas se passam no mundo, como nós as vêmos por ahi! Então é melhor não dar cópias da realidade. O que a gente quer é que o romancista nos pinte a sociedade, a vida e as paixões melhores ou peores do que são. Regala estar lendo uma scena sem naturalidade, e dizer «isto não é assim; mas, se assim fosse, era mais agradavel o mundo.» Onde está a imaginação do novellista, que repete o que viu, ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o theatro deve ser a photographia da vida! Vão para lá com os seus dramasinhos verdadeiros, e verão que nem os musicos da orchestra lh'os aturara. O romance é tal e qual a mesma cousa. Se nos não maravilha, enfada-nos. Viram cousa assim?! Deixar o author correr glacialmente aquella scena da portaria do convento! Ainda agora podiam estar os conjuges a dissertar a respeito da calumnia que custou onze annos de martyrio á esposa sem nodoa! Pois o remorso não era aguilhão sufficiente para fazer andar o marido em bolina n'aquelle local tão poetico, e obrigal-o a raivar contra si, e a desentranhar-se em eloquencia de phrases e lagrimas aos pés da mulher! Nem um ah! nem um oh! lhe ouvimos!... É de mais! Póde ser que assim acontecesse, e que o facto assim descripto o lêsse o author no manuscripto do padre Alvaro Teixeira; mas isso não indulta o artista, que recebe das mãos da natureza uma pedra, e faz d'ella uma Nióbe ou um Laocoonte. O romancista é o esculptor das paixões: enfeital-as, corrigil-as, dar-lhes com palavras a expressão que ellas estheticamente não podem exprimir, é seu officio. E, se o author me não entende, eu lhe aclaro a idéa: É de crêr que as pessoas testemunhas do lance, entre Manoel Teixeira e sua esposa, se commovessem, porque lhes viram nos semblantes os movimentos da alma; nós, porém, que os não vimos, precisávamos de receber da phantasia do escriptor uma descripção, que nos sacudisse os nervos, e levantasse o espirito á altura em que o levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta amigavel censura; e, para outra vez, belisque a imaginação, se quer que o seu nome de romancista reverdeça, orvalhado com as nossas lagrimas, ou festejado com as nossas gargalhadas. Chorar ou rir, é onde bate o ponto. Quem não conseguir uma das cousas, não nos importune.»
Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e de experiencia tenho que a verosimilhança, qualidade em que tenho aperfeiçoado esta minha arte, me tem grandemente desmerecido a valia dos meus romances. Ha muito tempo que não mato ninguem senão de molestia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bemquisto dos poetas, e dos leitores sentimentaes, tenho denominado tisica pulmonar, ou congestão cerebral, o que em boa pathologia se denomina hydropesia ou inflammação intestinal. Não se tem suicidado ninguem nos meus ultimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido rehabilitada ao amor virginal. Isto é nocivo ás minhas curtas aspirações, bem o sei; mas já agora não arripio a carreira; liei-de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações, de que me sinto muito alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das visualidades. Já n'outros livros me tenho cançado a responder a reparos que a critica, não impressa mas em familia, me tem feito. Paciencia. A França, de Bernardin de Saint-Pierre menosprezava a historia singela de Paulo. Arguiam de infecundidade o author que o não fez carpir-se em desesperado monologo ao pé do cadaver de Virginia. Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome d'aquelle romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora, pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lagrimas, que Napoleão lhe dava em Santa Helena?
N'este genero de escriptos, o sello da perpetuidade grava-o a natureza. O templo dos livros immortaes é servido de poucos sacerdotes; mas, grande gloria lhes é esse culto sem estrondo! Não vão agora cuidar que eu estou já d'aqui espreitando o nicho do templo da eternidade em que me hão-de encolher os vindouros—encolher, digo, porque não podemos lá caber todos! Não, senhores! eu no que penso é em converter o meu leitor á religião da verdade, e levo em vista movel-o a lêr outra vez aquella fria e frouxa scena da portaria de Vairão. E, se alguém disser que eu estou dando satisfações impertinentes, respondo que é isto respeitar os meus leitores, e proposito de adelgaçar as rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua critica, porque os eu não faço chorar nem rir.
Respondi, e volto ao outeiro.
Alvorecia a manhã, quando a maior parte dos poetas se retirou com as musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto sagrado, não ficava contente, nem se enthusiasmava a repetil-o ao poeta. Se, porém, no mote vislumbrava idéa amorosa, era muito de vêr e admirar o desembaraço com que a azougada menina se espevitava, proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pae, que andava, como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e como tal a apresentava aos trovadores embellecados da voz argentina e insinuante, que ella tinha. D'estes, o mais verde em annos, e mais verde em esperanças, sentiu-se namorado d'aquella voz, e d'amor tão engenhoso que, até dos motes ao divino, profanava a idéa convertendo-os em madrigaes. Leonor estava encantada de ouvir o seu poeta, e já perguntava com anciosa curiosidade quem elle era. Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Villa do Conde, tão bom poeta como mau filho, que tinha dado grandes desgostos a seus paes. Esta ultima parte da informação não a desviou de já, sol nado, sustentar com algumas noviças o outeiro, cujo unico poeta era o de Villa do Conde. Não queria ella retirar sem vêr o rosto do vate dos amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na sympathia igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi passear na cêrca, e scismar, como podem os corações fatidicos scismar aos quatorze annos.
VIII
Oh!..............................
Nec te aleator ullus est sapientior...
Nunca velhaco algum mais destro fora.
PLAUTO.
Maria da Gloria, Leonor, e as damas, depois do almoço do dia seguinte, sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira, que fizera pedir á prelada uma grade especial em que elle podesse estar a sós com sua mulher. Maria da Gloria, sabedora da petição, escreveu a seu marido estas linhas: