«A tua dignidade e a minha impõe a nós ambos a delicada obrigação de não proferirmos uma palavra com relação aos acontecimentos que me trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha innocencia: emenda tu agora a culpa de me não teres attendido, portando-te aos meus olhos como se a consciencia te não doesse. Se precisas desafogo, procura-o em Deus, e sentirás allivio. A Divina Providencia escuta os innocentes e os criminosos.

«O pedido, que fizeste á senhora abbadessa, não póde ser por minha parte satisfeito. Irei á grade; mas Alvaro estará comnosco. Sei que te has-de cohibir de confessar as tuas culpas, na presença de teu filho, que as ignora.»

Estava já Manoel Teixeira na grade, quando recebeu o bilhete, e minutos depois chegou Maria e Alvaro. O marido apertou-a ao coração, e disse-lhe:

—É assim que te vingas, Maria?

—Que me vingo!...

—Sabias que estas dôres do remorso só podiam as lagrimas allivial-as, e prohibes-me de fallar, e chorar, para que eu não ouça da tua boca a palavra «perdão»!...

—Perdoei...—balbuciou ella.

—E o teu perdão, minha amiga, devo tomal-o como esperança de me poderes, um dia, restituir o amor que tão mal paguei?

—Cala-te... Não me falles em amor... Que vens tu pedir a uma desgraçada mulher, que envelheceu e morreu aqui?! Parece que não sabes imaginar os dias e as noites de onze annos! Quem espera achar coração em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel?

—Queria ter com meu filho quinhão do teu amor. E impossivel? não me queixarei. Acceito a tua indifferença como castigo; mas não me odeies, filha, não. Fui teu algoz porque era teu verdadeiro amante...