—Basta!...—disse com esforço Maria, relanceando sobre Alvaro os olhos sem lagrimas—Esqueces o meu pedido?

Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a tempo que Maria encostava ao coração a face do filho. N'esta contemplação de minutos o que seria o espirito d'aquelle homem? Uma agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d'uma grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas sobre os ossos aridos, a decomposição de um rosto que fora a imagem, o symbolo vivente da graça e da harmonia. Que fizera elle durante os onze annos que devoraram a belleza e o coração d'aquella martyr? Devia de ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da alegria e da opulência. Tivera palacios em Napoles, e alteára-se em suas pompas a tão elevado ponto, que deram d'elle fé os indifferentes de Paris. Em quanto a esposa pura d'alli pedia uma visita de seu filha unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu patrimonio d'ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade, se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do luxo dos seus palacios de Napoles e de Belem? Como pôde elle tão depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da italiana, a cujos pés elle rolava o ouro, que trouxera de Macáo, grangeado pelo incansavel lavor d'um pae, que a si tirava o que lhe parecia necessario á futura magnificencia de sua filha!

Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas dores, quando elle de impeto se lançou aos pés de Maria, exclamando:

—Tu não podes perdoar-me!

Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe:

—Se te mereço compaixão pelo passado, não me afflijas. Ergue-te. Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas forças. Dá-me o teu braço, Manoel. Iremos vêr de perto as arvores, que eu vejo, ha onze annos, da minha cella.

Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher. Sahiram, e sósinhos, e silenciosos. Queria Alvaro chamar Leonor, mas o pae rejeitou a lembrança.

—Vamos sós—disse elle—sejamos egoistas d'esta felicidade... embora minha sómente...

Maria sorriu-se, e disse com accentuação melancolica:

Felicidade!...Tem-l'a conhecido no amor d'este anjo?... Creio-a, se me disseres que sim... De resto... como poderias tu ser feliz, se ha Deus!...