—Quem é o senhor Sotto-Mayor?!—tornou Maria da Gloria com espanto.

—Já conhece os poetas pelo nome—respondeu o pae com alegria—O Sotto-Mayor é um rapaz de Villa do Conde, por cuja musa a pequena perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma eternidade de sonetos.

—Já é paixão de versos!—tornou a mãe de Alvaro—Sabes tu fazer versos, meu filho?

—Não, minha senhora: sou ainda muito nova—respondeu Alvaro—A prima Leonor é que tem lido muitos versos.

—Já li o Bocage;—acudiu a menina, acompanhando a expressão de tregeitos exquisitos—li tambem o Belmiro, e as poesias do Garção, e do Quita, e do Lobo, e muitas outras que o papá lá tem. E a senhora D. Catharina de Balsemão, e a senhora marqueza de Alorna gostam muito de me ouvir recitar sonetos, e ensinam-me quando eu não declamo bem.

—Bem está—disse Maria—estás uma doutora, minha sobrinha!... Queres tu ser freira para gozares as delicias d'um outeiro de tres em tres annos?

—Freira! Deus me livre! Eu não sei como ha quem possa viver n'um convento! Antes morte que tal sorte!

O morgado achou muita graça á esperteza da menina, e concordou com ella em não saber tambem como houvesse gente que quizesse sequestrar-se do mundo, que, segundo elle, não era tão mau como os misanthropos o calumniavam.

Todos os passeantes se empenharam n'esta questão, que Maria da Gloria defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no coração e na consciencia. N'isto appareceu o poeta de Villa do Conde, e Leonor, estremecendo, exclamou:

—Elle lá vem! é elle!