—Pedes-me a mim que seja eu o algoz do meu filho, de um filho teu, querida da minha alma?... Cuidas que te hade pezar menos o remorso de matricida que a vergonha da fuga! Onde está o teu amor e o teu coração, filha!

—Mas se elle vier...?—atalhou ella.

—Teu marido?

—Sim.

—Não te encontrará; por que elle nunca mais ha de ver-te, nunca mais ha de sentir a tua respiração, ouviste? Isto é infernal!—disse elle com desesperada concentração—pois esta mulher ainda quer parecer pura aos olhos de tal homem!... Então que sou eu? que poder tenho na tua vida?

Thomazia punha as mãos, e clamava:

—Perdoa-me! perdoa-me! que eu... estou doida!... não sei, não sei o que hei de fazer... Olha, Nicoláo, eu queria vêr-me livre d’este apêrto... Isto não póde ser! Fugir, meu Deus? que dirão meus padrinhos, que me amavam tanto!... que dirá toda a gente...? Jesus, valei-me!... Meu amor!—proseguiu ella acarinhando-o.—Nós não precisamos de filhos para ser felizes, pois não? Que tinha que me livrasses d’esta afflicção, dando-me qualquer coisa... Eu sei que ha meios de se conseguir, se tu quizeres. Isto por ora não é nada que possa sentir dôres, pois não? Então que tem que eu possa ser tua, sem me perder de todo, sem causar esta vergonha a meus sogros que são uns santos...

—Mas...—obviou Nicoláo.—Ainda que elles te vejam assim e saibam o teu estado, não cuidam que és mãe de um neto d’elles...? Por ventura sabiam elles o divorcio occulto em que tu vivias ha mezes com teu marido?

—Não sei se o sabem; mas creio que não...

—Então?