—E elle? quando o pae lh’o mandar dizer?

Nicoláo não achou redarguição rasoavel.

—Vês?—sobreveiu Thomazia.—Vês? não tens que responder-me.

—Tenho!—acudiu elle.—Foge! que te hei de eu mais dizer, minha filha! eu, que te amo tanto, não sei, não posso valer-te de outro modo...

—Pois, sim—tornou ella mansamente contendo-lhe os transportes perigosos, no silencio da noite—pois, sim; esperemos... quando eu já não puder evitar a desgraça... quando vir que sou sem remedio descoberta e perdida, então fugirei para ti...

—Mas que importa, que lucras em esperar a desgraça extrema?!...

—Póde ser que isto não vá ao fim... que Deus escute os meus rogos... e que eu me veja livre, antes que ninguem desconfie.


Nicoláo d’Almeida saíu tão affligido quanto espantado da reluctancia de Thomazia. Não a entendia; porque não pudera ainda confrontar duas mulheres amadas, quatro, vinte mulheres sublimes, infames, castas no vicio, almas dissolutas em envolucro immaculado, esmagando a força da consciencia propria e acovardadas deante da maledicencia de uma visinha; arrojando-se affrontadoras contra a sociedade e succumbindo imbelles e pueris á condemnação de si mesmas; temendo a justiça do inferno nas venialidades e desprezando o juizo da providencia nos crimes enormes; rindo no cairel do abismo e chorando se lhe empecem dissabores passageiros.

Que tinha Thomazia de tudo isto? A consciencia inconciliavel com os delictos do coração; a fraqueza do raciocinio egual á imbecilidade com que prevaricára. Não seria antes aquillo tudo uma estupidez congenial? Que hade a gente pensar de um opprobrio que se mostra e não se esconde, justamente para que o não vejam? Emfim, Thomazia era o que ella de si diz no dialogo. Explicou-se cabalmente. Fugir seria dar o testemunho da sua deshonra; mas ficar, para quê? Esperava que os signaes da maternidade se desvanecessem? Era isso. Então que era ella afinal? Mulher.