Innocencio escreveu de Plymouth á familia, annunciando a sua chegada; mandava que lhe dirigissem a primeira carta para Londres, tendo, como vimos, indicado Veneza, quando saia do Rio. E, quando o pae lhe dizia que mandasse receber em Veneza uma carta, já elle estava em Pariz, esquecido ou descuidado da que devia estar em Londres. Como aquella cabeça se refez! Trinta contos de réis e uma sêde febril de gosar deram-lhe os modos e espiritos de um rapaz creado em delicias, amante do bello, inquieto, nervoso, sempre faminto e sempre resaciado como os grandes genios!

Não tem historia o encontro e enlace com Jacqueline Beaulieu de Rastignac em Pariz. É coisa simplicissima e trivial. A neta dos gentis-homens picardos tinha uma balança na mão, e pesava dois corações: um de quem quer que fosse; o outro do illustre portuguez viajante. Ora, o portuguez, como visse ouro fio e indecisas as conchas, atirou com alguns punhados de ouro á sua, e fez levantar a outra á cara do concorrente. Porém, constou ao vencedor que o rival buscava azo de o desfeitear. Innocencio conservava ainda a virtude da prudencia: saiu de Pariz para a Belgica, e d’aqui para Italia.

De feição que por lá andavam perdidas as cartas da familia, e elle d’essa perda de todo ponto resignado.

Averiguemos agora o desvio que levaram as cartas de Innocencio para a sua familia. Gervasio, desde que o filho chegou á Europa, uma tão sómente recebeu, sendo pelo menos seis, ainda assim, as que o distraido viajante lhe escreveu no espaço de trez mezes de delirante amor.

A franceza sabia que mr. de Barros era casado. Referira-lhe elle expansivamente sua vida, fazendo-se lastimar como forçado da galé de um matrimonio constrangido. Confidenciou-lhe o divorcio em que vivia sob as mesmas telhas, com a odiada consorte, dando como impracticavel o reconciliarem-se.

Entrou-se a ociosa lorette da curiosidade, até certo ponto util, de devassar a correspondencia do amante. N’este delicto, a seu ver innocente, lhe ia a ella muito: se o divorcio era sincero, cumpria-lhe reter as bridas ao fausto e ao gosto de ver terras, acommodando-se á vontade do homem para lhe não incutir suspeitas de o querer desbalisar e arruinar com o vulgarissimo desplante das suas collegas; se o divorcio eram meros arrufos de passagem, urgia-lhe estar de sobre-rolda com a mercadoria do seu coração para não perder o lanço de leiloal-a a tempo. Além d’isto, convinha-lhe outro sim inferir da correspondencia a verdade das jactancias de Innocencio quanto a bens de fortuna. Cedulas, luizes e libras tinha elle a rôdo, e bem lh’os via ella; mas carecia de certificar-se da abundancia do manancial.

Gizado o plano, executou-o no primeiro ensejo.

Comprado pela franceza, o criado, portador da carta, entregou-lh’a. Na do pae ia incluida outra de cincoenta palavras para a esposa. Sem impedimento, porém, da sovinaria dos vocabulos, vinte d’elles pelo menos eram de esposo que fingia ter saudades e tal qual pesar de as não ter sentido ha mais tempo.

«Lá para o futuro—escrevia elle a Thomazia—hei de tornar a estas terras e tu has de vir tambem para vêr o que é bonito. Se não fossem as saudades que tenho de ti, andava contente por cá.»