A franceza surriu-se perversamente e disse entre si:

—Olha que divorcio!... Que lérias me tem cantado o tal sujeito!... Eu me acautelarei...

A carta a Gervasio era mais extensa, e nada explicava respeito a riqueza; todavia, como não solicitava nova remessa, nem dava explicações do capital esbanjado, sobravam provas de haver ainda bastante que dispender com certa independencia do pae.

Jacqueline queimou as cartas, e não deixou sair ao rosto denuncia de estar vigilante sobre as acções do fementido Innocencio.

As subsequentes cartas, escriptas de Italia, seguiram egual fado. Observou, porém, a franceza que as frases suaves de mr. de Barros para a esposa iam esfriando á medida que os dias e as noites discorriam, revesadas por delicias da natureza e da arte, entre os dois camaradas de viagem. Isto dava-lhe a ella uma idéa vantajosa da sua pessoa e bem fundada soberba de ir conquistando uma alma menos má.

Quem passava dias amargosissimos era Gervasio José de Barros e sua mulher.

Trez mezes sem carta do filho, nem novas indirectas da existencia d’elle!

Thomazia escondia-se da sogra por não poder acompanhal-a nas lagrimas, nem estar sinceramente ajoelhada deante do oratorio a requerer a divina protecção para seu marido.

—O meu filho morreu!—exclamava a consternada velha D. Thomazia, abraçando-se á afilhada—morreu, minha menina!... Se estivesse vivo, quando teu padrinho lhe disse que tu estavas no teu quinto mez, o meu filho vinha logo para casa!...

E voltava-se outra vez para Deus, cuidando que a nora cooperava nos seus afflictivos rogos, ao tempo que a esposa do chorado Innocencio ia esconder-se no seu quarto para beber a tragos as delicias de imaginar-se viuva e desapressada das angustias do medo e da vergonha.