Não ha ahi dizer o desafogo d’aquelle pleito da supposta viuva! Cada vez que o sogro vinha da rua, suado de andar pelos consulados a solicitar de diversos paizes novas do filho morto ou vivo, Thomazia ageitava o mais amargurado rosto que podia, e, saindo ao velho, de braços estendidos e respiradouros arquejantes, perguntava-lhe que novas tinha.

Gervasio rompia em pranto desfeito, esmurraçava os pulsos um contra outro na impaciencia da sua dôr, e gemia:

—Não sei nada!... Estás sem marido, e eu sem o meu filho! Estou resolvido a ir eu mesmo em cata d’elle por esse mundo fóra!

Acudia então a esposa, tirando do peito gritos pavorosos:

—Não te deixo ir, meu Gervasio, não! Se vaes, por lá acabas tambem, marido do meu coração! Se elle vive, Deus o encaminhará; se morreu, não ha remedio, e cedo ou tarde nos virá a certeza para lhe cuidarmos da alma!...

Sobrevieram no entanto aggravantes noticias de muitos naufragios, e desastres nos caminhos de ferro, durante os trez mezes ultimos. Nada mais possivel que ser Innocencio uma das obscuras victimas contadas ás centenas, sem ter deixado signal nem documento da sua naturalidade para os competentes avisos.

Todos aceitavam, ainda assim, o caso funesto como supposição; salvo Thomazia, que o defendia como coisa certa, quando Nicoláo d’Almeida lh’o impugnava, imaginando o conflicto de apparecer-lhe o marido inesperadamente em casa.

As averiguações do ministro dos negocios estrangeiros conseguiram, depois de um mez de inculcas, bem dirigidas pelo representante portuguez em Pariz, descobrir a residencia de um chavalier de Barros em Milão. Para esta cidade enviou o ministro portuguez as necessarias perguntas, e colheu que o hespanhol chamado Barros já tinha saido com passaporte em direcção á Sardenha. Proseguiu o activo indagador na piugada do inquieto viajante, e vingou fazer chegar a Turim uma participação, informando Innocencio José de Barros do cuidado em que estavam seus paes em Portugal com a falta de suas noticias. Esta participação, recebida pela franceza, não chegou a vêl-a Innocencio, nem duas cartas de Gervasio que lhe iam inclusas, uma encontrada em Londres, outra dirigida a Pariz. Mademoiselle Jacqueline Beaulieu de Rastignac respondeu incontinente que as suas cartas se tinham desencaminhado, mas que ia immediatamente assegurar a seus paes que vivia e tinha saude. Escreveu e assignou: Innocencio José de Barros.

Espantou-se o homem quando voltou a casa, que a franceza lhe fizesse esta pergunta n’um tom de chança:

—Diz-me cá: estás bem certo de que vivias com tua mulher tão castamente como se conta de certos santos casados com certas santas?