—Eu não posso ir...—murmurou a esposa de Innocencio, erguendo custosamente a cabeça.

—Pois não venhas, filha, não. Aqui fica teu pae a conversar comtigo emquanto nós vamos resar. Cá pediremos tambem em teu nome, Thomazinha; e mais tu podes resar d’ahi tambem, que Deus Nosso Senhor está em toda a parte onde se procura.

—Ó rapariga!—continuou Gervasio, assim que as senhoras sairam—a nós a alegria deu-nos de bota abaixo! Eu tambem perdi a tramontana; e, se lá não está o gallego, dou com a cabeça no corrimão, que a parto! Não que elle!... Ó menina, eu parece que estou areado do juizo! Pois inda torno a ver meu filho!... Que me dizes?

—Deus o queira...—murmurou Thomazia, dizendo no fundo do seu coração: «Matai-me, Senhor, matai-me, e condemnai-me ao inferno para sempre!»

—Tu estás a modo de triste, afilhada!—sobreveio o velho.—Que tens tu que estás chorando agora?

—Chorando?—disse ella apalpando os olhos—é verdade... não sei por que choro... é alegria... pois que hade ser, meu padrinho?... é alegria...

—Ah! lá isso entendo eu! Olha, queres tu ver que tambem me rebentam as lagrimas?

De feito, Gervasio chorava e alimpava os olhos ao punho da japona, dizendo entre frouxos de riso:

—Deixal-as cair, que são as ultimas... Não torno a chorar na minha vida. Venha meu filho, veja eu o meu netinho, e depois não ha mais nada p’ra mim n’este mundo. Já cá deixo gente que farte para fazer honra á minha memoria.

N’este momento, sacudiu-se em convulsas contorções D. Thomazia, e vibrou um prolongado gemido.