E abafou o monologo, á mingua de auditorio.
Restaurou-se, porém. A raiva umas vezes faz versos, como disse o poeta romano; outras faz saude, como Gervasio José experimentou.
Foi prateando o tempo a veneranda fronte do velho.
Em 1865 prefazia elle setenta e trez annos, e Pedro de Barros dezenove.
Completou o moço a sua educação de rico. Sobejava-lhe verniz litterario para poder em qualquer parte do mundo fingir que não ignorava os rudimentos da sabedoria humana. Jogava armas conspicuamente. Ganhára premios no florete e pistola. Nadava rapido e airoso como um tritão. Desfazia e refazia as articulações em gimnastica. Tocava harpa e piano, lira e rebeca. Carambolava com prodigiosas quantidades; estremava-se nos repiques e repercursões. Em gineta era um perfeito cavalleiro e coudel. Sabia de fundamento a anatomia dos cavallos, e nada sabia da sua.
D’esta arte sahiu do collegio para a companhia do avô.
Pediu um cavallo. O velho deu-lhe dois e carro, com lacaios e libré a capricho. Principiava a fraqueza d’aquelle provecto cérebro de Gervasio! Elle, que esbanjava assim os rolos das libras, é que a morte lhe andava perto.
Um dia, chamou Pedro de Barros ao seu quarto, e fallou-lhe d’este feitio:
—Meu filho, filho do meu sempre chorado Innocencio, é chegada a occasião de te dizer o que não sabes. Tua avó, que Deus tem, e a ama, que te criou, disseram-te que teu pae e tua mãe tinham morrido. Teu pae... certo é que morreu; tua mãe, não.
—Eu tenho mãe!?—exclamou Pedro, crescendo para o avô com transportado impeto.