—Tens e não tens, Pedro. Senta-te ahi, e escuta. Morreu tua mãe para nós, porque foi a vergonha da minha cara, e a deshonra de teu pae. O meu caro filho, como sabes, acabou no Havre; e acabou estarrecido de paixão, segundo lá mesmo me disseram no hotel onde elle expirou. Quando a febre o fazia delirar, gritava contra tua mãe, dizendo que morria sem a matar. Basta que eu te conte que, pedindo-lhe o confessor que perdoasse á mulher, elle saltou furioso da cama e não quiz confessar-se. Foi ella que matou o meu filho, foi ella, Deus o sabe!

Queres agora ver, Pedro, que alma tinha a tal féra? Olha tu. Na noite em que esperavamos teu pae, fugiu ella para a companhia de um homem. Quando cheguei a casa com a noticia de elle ter morrido, achei tua santa avó, e tuas tias e tios que já lá estão em cima, a gritar como doidos cuidando que ella se tinha ido botar ao Douro.

Saí de Portugal, quando soube que essa desalmada queria tirar-te da minha companhia, a ver se á tua sombra me comia o suor de meus avós. Deixei os meus negocios arranjados de modo que não ficasse coisa a que ella deitasse as unhas. Pouco e pouco vim passando para cá a minha fortuna e hoje estou senhor de tudo que herdei e ganhei.

—E ella onde está?—atalhou Pedro—E elle!?... Onde está o infame que motivou a morte de meu pae?

—Casou com ella, vivem lá n’uma provincia chamada Minho. Deixal-os estar, que os leve o diabo. Não queremos saber onde estão.

—Oh meu avô!—interrompeu o filho de Thomazia—pois meu pae não hade ser vingado? O opprobrio d’elle não recae tambem sobre mim?

—Deixemo-nos de asneiras, rapaz. Não me comeces a tresvaliar lá com as tuas valentias. Não quero saber d’essa gente. Tua mãe, já te disse que morreu... Ora attende cá. Estou muito velhinho. As pernas já me estão a pedir sepultura. É tempo de te pôr ao corrente dos negocios. Assim que eu fechar olhos, Pedro, manda abrir o meu testamento, onde eu deixo declarado o que se hade fazer por minha alma. Eu lá digo que não tenho nada que deixar, porque receio que tua mãe ainda queira levantar-se com metade da tua herança; mas tu, meu neto, ficas desde já sabendo que n’aquelle cofre de ferro tenho toda a tua fortuna. Ali estão oitenta contos de réis em dinheiro de contado. Guarda-os, toma posse do que era de teu pae, vive do rendimento d’elles que te hade chegar; não te ponhas a extravaganciar, porque podes vir a ser pobre, e muitos o chegaram a ser com mais do que tu. Se alguma vez fôres ao Porto, pede lá que te contem a historia de Pedro Sem, o mais rico negociante que meu pae conheceu, e acabou pedindo. Ora pois, Pedro... Eu bem queria deixar-te casado; mas... leve o demo tal idéa... A desgraça de teu pae fui eu que a fiz com o endiabrado casamento d’uma rapariga que tua avó foi buscar á miseria, e ali creámos como filha!... Deus lhe pedirá contas...

—Que infame mulher!—murmurou o filho de D. Thomazia.

—Deixa-a lá... que o fim não hade ser bom...

—E eu sou filho de tal monstro!—volveu Pedro batendo uma rija punhada no peito.—Eu!... filho d’essa vilissima creatura!