—Lembra-te—acudiu o ancião—que és sómente filho do meu Innocencio. Esquece-a para sempre... Lá está em cima quem n’a hade julgar. (Pedro soltou um cacarejo de riso nasal e arrepelou os cabellos).

—Que engrimanços estás ahi a fazer?—perguntou Gervasio.—És um crianço! é o que tu és!... Tens vinte annos ainda por fazer. Se Deus me der dois annos de vida, que não dá, ainda terei mão de ti; senão, vou para o outro mundo a temer que faças destemperos por cá. Pedro!—bradou elle energicamente—Pedro, tu não te mettas com essa mulher! Já estou arrependido de te contar o caso...

—Não se arrependa, meu avô!... Eu tenho no coração a dignidade e os brios de meu pae.

—É o que se quer; e não me afflijas, que estou doente, e qualquer coisa me faz mal. Não te vivo muito tempo, filho... Seis mezes, quando muito...


Viveu menos do que esperava o pobre velho. Contava ainda com outra primavera, e ao visinhar-se a aurora da eternidade cuidou que se lhe iam os alentos á mingua de um caldo de gallinha. Suavissima foi a morte que lhe chegava o seio como recôsto de descanço. Uma leve inclinação de pescoço ao hombro de Pedro, e um suspiro de creança adormecida foi o trespasse do leveiro espirito a quem Deus certamente não carregará com o peso da fraudulenta pobreza.


Pedro de Barros suffragou-lhe a alma, recadou as aureas entranhas do cofre de ferro, e permaneceu em Londres por espaço de trez mezes, colhendo de Portugal e de portuguezes certas informações.


Chegou, no entanto, ás gazetas de Lisboa e Porto a noticia de ter morrido em Londres Gervasio José de Barros. Um noticiador accrescentava que a «fortuna» do defunto devia ser muito grande, bem que se não désse registro nem inventario d’ella. Recuando delicadamente a coisas acontecidas vinte annos antes, reflexionava que um neto do defunto é quem poderia sobre o certo dizer quantas centenas de contos seu avô deixára.