—Está portanto deliberado. Vou a Londres. Se o vir—que heide ver—aperto-o ao coração, e digo-lhe: «Atira á lama o dinheiro de Gervasio de Barros; manda-o apanhar pela parentella pobre que elle hade ter em Portugal. Vem que és filho de um homem rico; os teus appellidos são Alves Pinto por tua mãe, e Almeida por teu pae, que sou eu. Abraça-me, filho, que te bate no seio o coração de quem ha vinte annos chora por ti!»

Thomazia tambem chorava de alegria e enthusiasmo maternal.

Poucos dias passados, o fidalgo de Caminha saía para Pariz.


Em uma carta escripta desde Londres dizia Nicoláo d’Almeida a sua mulher: «Pedro saiu d’aqui ha quinze dias. Não me sabem dizer para onde. Presume-se, porém, e é natural que esteja em Pariz. Volto ámanhã para lá...»

No dia em que D. Thomazia recebeu esta carta, apeou de uma carruagem em Caminha um mancebo de galhardo aspecto e ademans afidalgados. Procurou a residencia de uma familia illustre da villa. Apresentou carta de recommendação, e perguntou onde morava Nicoláo d’Almeida.

Disseram-lhe que estava em Pariz, para onde partira um mez antes, e que a familia se retirára a uma quinta das margens do Minho.

Perguntou Pedro de Barros se seria possivel saber-se a residencia de Nicoláo d’Almeida em Pariz. O cavalheiro interrogado, querendo servir o forasteiro que um amigo lhe recommendava calorosamente, encarregou-se de mandar saber á quinta a paragem de Nicoláo. Voltou o solicito informador com esclarecimentos dados por D. Thomazia: que seu marido se hospedára em Pariz no Hotel des Étrangers, rua Vivienne, 3; mas que a ultima carta recebida viera de Londres, onde Nicoláo d’Almeida apenas se demoraria algumas horas.

Pedro de Barros resistiu aos rogos da familia, que lhe pedia a honra de pernoitar em sua casa. Desandou para o Porto, e saiu na via ferrea do mesmo dia para Lisboa, afim de alcançar o paquete francez.