Nicoláo d’Almeida jantava no dia 5 de julho á mesa redonda do Hotel des Étrangers, e viu em frente de si um moço de gentil compostura, ainda imberbe, conversando com inglezes e francezes correctamente as duas linguas, segundo quiz parecer ao portuguez, que não era hospede em nenhuma. Prestou-lhe attenção, e ouviu dizer que vinha de Portugal. Perguntou-lhe um italiano se era portuguez. Pedro de Barros respondeu negativamente.
—Parabens!—disse o italiano, que era tenor.
—Parabens, porque?—perguntou Barros por sobre a espadua, alisando com o guardanapo a penugem do buço.
—Porque portuguezes são canalha—explicou o tenor.—Estive no Porto um inverno, n’aquella bruta terra onde não ha lettras nem artes. Ha vinho e muitos bebedos.
—O senhor cantou no Porto em 1855?—perguntou Nicoláo d’Almeida em bom francez, intervindo na palestra dos visinhos.
—Sim, cantei.
—Recordo-me:—tornou o portuguez—cantava pessimamente e foi pateado. Quem o pateou não foram os bebedos do Porto. Estavam lá cavalheiros que, nem ainda insultados por um biltre, aviltariam um tagante.
O tenor levantou-se e disse enfaticamente:
—Uma satisfação!
—Não lh’a dou—disse placidamente Nicoláo.—Pertenço aos cavalheiros que não se medem com cantores, além de pessimos, villões.