Passava a vista spasmodica pelo filho que lhe estendia os braços, chamando-o clamorosamente, e não o via. Já a esposa, caída no pavimento, levantava um alto pranto, e elle não ouvia. Os servos rodeavam os seus infelizes amos, chorando e clamando, e Nicoláo ajuntava áquella dissonancia dos gritos o stridor rispido dos dentes.
Morrêra-lhe a razão. Era a demencia que os especialistas denominam a das paixões spasmodicas.
E, depois, em quinze dias, aquella mulher que ainda era formosa, envelheceu, á beira do marido.
Alta noite, quando sonhos horrentes lhe sacudiam o corpo adormecido, mas intangivel á mão bemfeitora da morte, erguia-se e dizia á esposa:
—Thomazia, levanta-te. São horas de sair. Vou para Londres. Vou procurar meu filho. Anda. Chama o escudeiro que me arranje as malas. Tu choras? pois que mãe és tu? queres ou não queres teu filho?
A pobre não sabia consolar. Começava a encher a mala de camisas, e esperava n’esta canceira que viesse a madrugada e o torpor do somno aquietar as impaciencias, e ás vezes os frenesis violentos do alienado.
Os medicos rodeavam o enfermo; porém, Thomazia não dizia a ninguem a origem da demencia do marido. Parecia-lhe atrocissima offensa ao desgraçado revelar que elle matára o filho.
Que supplicio o da viuva de Innocencio José de Barros! Que castigo tão desproporcionado! Se todas as alegrias da sua existencia de vinte annos valiam uma só das noutes que ella passava no quarto de Nicoláo d’Almeida!