Ao decimo dia da demencia, chegou outra carta do amigo que lhe enviára a morte na primeira.
Dizia d’este teor:
«Milagre! Pedro de Barros está salvo. Já se lhe levantaram os appósitos da ferida. A substancia perdida foi reparada. Aquillo é cabeça á prova de bala! Com um adversario assim não ha partido! Dizem os medicos que um elefante não resistiria», etc.
D. Thomazia arrancou a carta das mãos a Lopo, e correu ao quarto do marido, exclamando:
—Nicoláo, Nicoláo, não mataste o teu filho! não mataste! aqui está a carta do teu amigo... Olha, lê, lê, meu querido amor, lê, que teu filho está vivo! Ó mãe de Jesus Christo! valei a meu marido! Não lês, Nicoláo? Leio eu... olha... ouve...
Nicoláo d’Almeida ouviu com apparencia de profunda attenção, voltou as costas, entrou ao quarto de vestir, começou a reunir casacos e pantalonas, e saiu fóra com a troixa do fato, dizendo:
—O escudeiro que me dobre esta roupa. O wagon sae ás quatro horas para o Havre. Vou a Londres procurar meu filho.
Thomazia ajoelhava, caía de face contra o pavimento, e arrancava gemidos convulsos.
Dois mezes depois, em setembro de 1867, Lopo d’Almeida passeava no vasto salão, que servia de casa de espera, na quinta solarenga onde vivia-morto seu pae, e agonisante sem poder morrer sua mãe.