—Vae, afilhada, que eu bem sei que és uma boa menina—condescendeu o velho.—Pena é que este rapaz não tenha o coração de teu padrinho...
Thomazia saiu de rosto abatido e braços pendentes.
—Ó alma de cantaro!—apostrophou Gervasio—pois tu acharás debaixo da rosa do sol rapariga mais galante e que mais te encha as medidas?!
—Esta carta não era para mim...—tornou Innocencio, relendo a parte poetica, no dizer do velho, e a oração incompleta que parecia ser prosa.—Não tenho palavras com que possa explicar-vos—leu elle.—Pois ella que me queria explicar?! Sim; que me queria explicar ella a mim?
—Queres que eu te responda, menino?... Espera, que eu já volto.
Saiu Gervasio, tirando-lhe da mão o papel. Foi entender-se com a afilhada, deteve-se alguns segundos, e tornou:
—Eu te desengano já, pateta. Thomazia estava para pôr adeante d’isto que aqui está... Que diz? Deixa-me lêr: Não tenho palavras com que possa explicar-vos... ahi vae o resto: a satisfação que recebi quando vossa mãe me disse que nos queria ligar pelos sagrados laços do... não me lembra do que ella disse... é uma coisa muito fallada nas comedias... sagrados laços do... laços do...
—Do himeneu?—acudiu-lhe o rapaz.
—É isso... É o que ella queria escrever, por que diz que se acovardava de t’o dizer de cara a cara. Percebes, homem? Que estás ahi malucando? A apostar que tens alma de não amar este serafim!! Esta creaturinha tão linda que foi creada comtigo! Rapaz! olha bem para mim! Ouve lá, que isto é a valer. Se a não quizeres para tua companheira, quero-a eu para minha filha. Percebes tu? Para ella ter que comer á farta não precisa de casar comtigo. Olha se me entendes, Innocencio. O pae d’ella sou eu. Tu anda lá por onde quizeres, que eu... cá estou. O filho podem levar-m’o; o dinheiro não... Cuidas que eu não sei a tua vida? (aqui Gervasio espirrou um riso de maganão). Tenho-me calado, por que pensava que lá essas tuas raparigas eram amoricos de cáquerácá. A coisa é seria pelo modo... Deixas a minha afilhada lá por alguma farropilha que te botou o anzol? Bem asno és... Tu cá virás com a cella na barriga... Lá t’avém. Boas noites.