Argumento
Desengano aos fariscadores de escandalos. Como póde o engenho fazer o milagre de conservar personagens honestos até ao 4.º capitulo inclusivé. De como no Porto de ha vinte annos houve homens endiabrados com senhoras, e outras coisas tristes. Por que dizem que a esperança é verde. Entra na historia a senhora Custodia da Porciuncula, e as santas manhas d’ella, que foi amada de um boticario poeta. Vê-se que a menina gostava do enviado de S. Gonçalo de Amarante, mas não lhe entende o estilo. Explica a senhora Custodia o que é o rolo a suspirar pela rola, servindo-se do texto do boticario, que por signal se chamava Gregorio. Dizem-se outras coisas que tocam o coração.
Não se alegrem os pessimistas, os corvos que crocitam onde ha sómente podridão. Cuidam que teem escandalo já no capitulo 4.º? Vem mal parados cá para os personagens das minhas novellas, os quaes só começam a derrancar-se do 5.º capitulo por deante.
Aquella cartinha de Thomazia era casta como os coloquios amorosos das virgens com as estrellas, segundo poetas dizem que ellas se palram a horas improprias e suspeitas. Eu de mim declaro que ainda não surpreendi palestras d’essa especie: o que eu tenho visto é virgens, mais authenticas que as onze mil da legenda, conversando, pelo alto silencio da noite, não já com estrellas, mas com uns corpos opacos, a espaços luminosos por effeito da luz de algum fosforo.
E Thomazia não fazia isto nem aquillo; não conhecia estrella nenhuma, nem dava azeite nos gonzos da janella para a deshoras chover sobre o objecto amado o maná dos favos do coração.
A carta seria coisa, por pequenissima, mal-cabida nas grandiosas proporções d’esta historia, se eu não tivesse avesado o leitor a saber as miudezas de tudo. Vejam se tanta candura merecia a pena de duas ou trez paginas em 8.º!
Foi assim: Aquelle sujeito, que passou galhardamente, no seu estrepitoso fouveiro, Cangostas acima, quando a familia Barros estava congregada no escriptorio, era um moço bem apessoado, enlevo de olhos incautos, e D. João Tenorio quanto cabia nas forças seductoras de um portuense de 1843. Havi-os então de bico revôlto, fataes, menos scientificos que Fausto, e com mais quatro diabos no corpo que o outro. Que devastadores de corações em flôr e do mais!
Se é certo tudo o que se conta dos peraltas portuenses de ha quarenta annos até á regeneração da moral, que data ahi de 1850 para cá, somos todos pouco mais ou menos filhos d’elles, embora nos assignemos com os appellidos dos maridos de nossas mães. Isto, se é verdade, bem que não leze as leis da procreação, é deshonesto e digno de esquecimento. Esqueça-se. Viva tanto esta lembrança como ha de viver o livro que leva a denuncia.
Pois o cavalleiro, freguez do Reimão, e consumidor do linguado frito das hortas do Barros Lima, era um d’aquelles açoites que traziam espavoridos no Porto os anjos do pudor, custodios das mulheres respectivas.
Cuidava eu que elle não tinha lobrigado Thomazia a espreital-o pela fisga das duas portadas. Viu-a e dardejou-lhe dos olhos fulminantes uma flecha ervada no succo da sardonica erva que faz rir o coração. Sabem o que é rir o coração? Esta pergunta não a faço aos desgraçados nem aos velhos meus contemporaneos. É ás loiras almas dos dezesete annos de Thomazia. Loiras?! por que não? Quem quizer materialisar o ideal da suprema graça ha de enlourecel-o, assemelhal-o á suprema graça real. Pois o ouro que é senão louro? Porque chamaram verde á esperança, se por verde não quizeram figurar poetas o pasto commum das almas, os ervaçaes onde ellas se vão em sasão propria renovar sangue e pellagem? Loura é que se pinta a esperança aos olhos dos que ainda resistem á espessura de umas trevas negras e frias como a leiva interior das sepulturas. Aos cegos para côres da felicidade não pergunto eu, pois, se sabem o que seja rir o coração.