—Pois bem—replicou o interlocutor, anediando a rosca da luzente e calamistrada cabelleira que lhe assentava nas espaduas.—Faz-me vocemecê o favor de entregar uma carta á menina?

—Pois isso nem dado nem de graça; lá fallar-lhe, isso, não lh’o posso arranjar; mas escrever-lhe, não ha remedio, p’ra se entenderem; e eu aqui estou p’ra levar a carta.

—Aqui a tem—disse o «elegante». (Alcunhavam-se n’aquelle tempo de elegantes os sujeitos ferozes de que saíram depois mais parvuos e derrancados os modernos janotas.)

—Pois já a trazia feita?!—clamou a senhora Custodia com a sincera exultação de quem via em tudo S. Gonçalo e se via a si com a efficacia de suas recommendações.

E ao tempo que recebia a carta sentiu uma substancia mais fresca e solida do que o papel em contacto com os seus dedos.

—Isto que é?—perguntou ella, sem pôr os olhos sobre o objecto estranho.

—Faça-me o favor de receber estas tres mexicanas para rapé—disse urbanamente o moço.

—Nemja eu... não, senhor... queira servir-se de me perdoar; mas eu não ando n’isto por interesse... Tome lá, que eu não pego n’este dinheiro...

—Então, faz-me essa desfeita, senhora Custodia?!—redarguiu elle.

—Tenha paciencia...—insistiu a briosa velha. Não sou da casta de muitas criadas que eu cá sei. Isto que faço... sabe por que o faço? sabe por que eu levo a carta á menina?... É por que m’o manda quem póde... vem do céo este destino... o que eu quero é vêl-a feliz á filha da senhora que eu criei aos meus peitos, e heide olhar pela sorte d’ella em quanto viver. O que eu queria era ir d’este mundo depois de a deixar bem casada, para poder dizer lá no céo á mãesinha d’ella: «a sua filha lá ficou feliz a resar por nós ambas».