—Não conhece aquelle rapaz que ia a surrir-se para cima, e a assoar-se a um lenço branco?—replicou o moço—Não sabe quem é o Costa Guimarães?!... Ora adeus!...
—Eu tinha aberto a janella—voltou Thomazia triste, mas socegada—porque... estive por traz dos vidros a ver se...—E suspendendo-se por dois segundos, continuou com mais calor.—Eu direi a meu padrinho o que estava fazendo, e a razão por que fui á janella.
—Então, diz lá...—sobreveio Gervasio.
—Hade ser só a meu padrinho...
—Vae lá p’ra cima, Innocencio—disse o pae ao rapaz.
Saiu Innocencio com os olhos abatidos e as mãos nos bolços da judia. Levava ares de tolo, e todavia doia-lhe o coração deveras. Gervasio fez um gesto de cara para deante e cabeça para traz, significando á menina que fallasse.
—Eu, padrinho, estava atraz das vidraças a ver se o Innocencio saía. Quasi sempre o vou espreitar de modo que elle o não saiba, para que não pense que eu lhe quero bem por que elle é rico. Hoje estava eu á espera que saisse; esperei, esperei muito tempo; e cuidando que elle estava á porta da rua a olhar para a Maraquinhas Gomes, abri a janella, quando ia a passar o tal homem a cavallo, que eu não sei se é Guimarães, se que diacho é. Vae n’isto, o Innocencinho foi p’ro meio da rua, e poz-se a olhar para mim muito carrancudo. Eu pensava que a zanga d’elle era por eu o andar espreitando; e vae elle de que se hade lembrar? vem dizer ao padrinho que eu estava a namorar o outro. Coisa assim!...
Thomazia tirou um lencinho da algibeira, e levou-o aos olhos para que Gervasio lh’os não visse enxutos.
A cara do velho alargou-se dilatada pelo calorico da alegria; é preciso a fisica para explicar os movimentos das caras onde não ha metafisica nenhuma. Tem não sei que aspeito alvar o contentamento das almas boas. O de Gervasio José de Barros jubilava tão grandemente e tão convencido da innocencia da afilhada, que não se satisfez com menos de abraçar a orfã e exclamar:
—Ó menina, perdôa ao meu filho, que é um asno!... Anda aquelle bólas com a cabeça tão desarranjada, que se tu lhe não dás juizo com o casamento, eu qualquer hora pego d’elle e mando-o comer no Brazil o pão que o diabo amaçou. Mas o que o Innocencio quer, filha, é que tu gostes d’elle, e mal sabe o patarata que tu lhe queres tanto... Gostas do meu filho, deveras, rapariga?