—Sim... eu...; mas... elle... como é rico, e tem muito quem o queira... e eu sou pobre... por isso...
—Asneiras, menina, asneiras! Quem é rico sou eu, não é elle, entendes, Thomazia? Eu é que tenho alguma coisa, riqueza não digo, por que ha quem tenha mais; mas ganhado com mais honra, não. Ora agora, o meu filho por emquanto é tão rico como tu; e ao futuro, se me andar fóra dos eixos, póde ficar a ver o sete-estrello, entendes?... Eu já te disse que...
—Mas se elle casar com outra menina rica...—interrompeu Thomazia.
—E d’ahi?
—Não lhe faltarão senhoras do agrado do padrinho...
—Não me dês leis, menina. O que me convem sei eu... Não quero cá a menina rica... Quero-te a ti, por que te estimo como filha; quasi me nasceste nos braços; e prometti á alma de teu pae olhar tanto por ti, como se fosses irmã do meu Innocencio. São dois filhos que eu tenho. Se elle te não quizesse, Thomazia, sabes o que acontecia? pelo menos metade do que eu tenho havia de ser teu; isso lá nem a justiça nem o bersabú t’o tiravam. Se elle casar comtigo, como de feito, fica-vos tudo; não tendes partilhas que fazer, e fica-vos bastante, graças a Deus, e louvores a quem m’o deixou sem pragas de orfãos e viuvas.
Thomazia não se enterneceu até ás lagrimas; mas ficou tanto ou quanto commovida por sentimento de gratidão ao amor paternal do velho. Figurou-se-lhe ver a imagem do pae, ainda não delida totalmente da sua memoria, arguindo-lhe com severidade a perfidia com que respondia á generosa alma do seu bemfeitor. Sem intervenção do venerando fantasma de seu pae, sobrava para magoal-a a vergonha espontanea que sobreleva os malissimos instinctos.
O regosijado Gervasio José saiu ao pateo e chamou o filho, e a mulher, e as irmãs, sentindo não ser usual invocar os visinhos para quinhoarem da alegria de um coração bonissimo. Innocencio foi o ultimo que desceu.
—Venham cá!—exclamou o velho com as bochechas rosadas e cheias de riso.—Anda cá tu, meu filho, que és um lorpazito como eu fui quando amava tua mãe, e como hão de ser teus filhos e netos até ao fim do mundo peronia secla seclorium. Ouve lá, menino. Olha que a Thomazia foi á janella para te ver; e tu, que trazes a cabeça lá por cascos de rôlhas, cuidaste que ella ia ver o outro. Menina, conta ahi tu como foi a coisa a este teu noivo, que está ali com um nariz de palmo a olhar p’ró chão e com a vista de esguelha! Não me estejas a olhar-me p’rá pequena com esse olhar de porco, Innocencio! Vaes mal com esse sistema... Pagar amor com ingratidão nem os cães. Menina, diz ahi tu como foi que...
Thomazinha, sem erguer o collo da pudica inclinação em que o tinha, murmurou mui constrangida: