—Peço licença... Ninguem me cá chamou; os meus santos é que me trouxeram...—disse ella.
Abriram-lhe passagem com agradavel sombra as trez senhoras em quanto a menina desabafava o animo, encarando na sua confidente.
—A senhora D. Thomazia tem razão—proseguiu Custodia, inclinando profundamente a cabeça deante da consorte de Gervasio.—Casar, se o coração não puxa, é mau arranjo. Sempre me ha de lembrar o verso em que o boticario dizia:
Menina, casar sem gosto
Por fazer vontade alheia
É cair no inferno em vida,
Remar contra a maré cheia.
Innocencio careteou uma visagem de anojado do tom enfatico e talvez ridiculo com que a senhora Custodia usava citar os aforismos liricos do boticario. A velha deu tento do desdem do moço, e calou-se de subito, relançando-lhe a vista azedada.
—Deixemo-nos agora lá do verso do boticario—disse o pae de Innocencio egualando-se ao filho no descaroado desamor a poetas, mormente quando se discutia uma coisa séria. Não venha cá a Custodia dar sentenças, que o negocio hade arranjar-se sem o seu voto, se Deus quizer...
—Senhor Gervasio—replicou a velha—se Deus quizer, sim; mas se Deus não quizer, não...