—Deixa fallar a mulhersinha, Gervasio,—interveio a esposa,—deixa-a fallar, que é mulher experimentada.

—Será, será; o diabo o negue...—acudiu o burguez maliciando o dito casto da mulher.

—Anjo bento!—murmurou a senhora D. Florencia—ahi vens tu outra vez com o cão tinhoso!

—Sabeis vós que mais?—redarguiu Gervasio—ide á fava! Estou a mandal-as todas p’ra riba, e fico sósinho com os pequenos... Que estás ahi a resmungar, Custodia?... Diz lá o que quizeres... Achas que a filha de teus amos vae mal casada com o meu filho?

—É consoante, senhor Gervasio. Se elles gostam um do outro, muito que bem; se não gostam, tanto faz ser rica como pobre; contentes é que elles hão de viver, quando eu fôr rainha. Não é isto nem aquillo... Estes meninos, cá segundo entendo, não estão talhados p’ra se casarem. O senhor Innocencinho não gosta da senhora D. Thomazinha.

—Quem t’o disse?!—bradou Gervasio.

—Ora, quem m’o disse! Basta vêl-o. Se elle gostasse d’ella, estava aqui agora aquella menina á espera que elle se resolva? Então já lh’o elle tinha dito, e acabavam estas caramunhas de parte a parte... Emfim, senhor Gervasio, queira perdoar o meu atrevimento, mas a minha opinião é que os deixe estar solteiros. O seu filho não lhe faltam noivas; e á menina, se Deus quizer, não lhe hão de faltar noivos. O melhor dote que ella pode ter é a sua virtude e a carinha de santa que tem.

Gervasio roçava as costas das mãos uma na outra e bufava, voltando a parte posterior de sua pessoa á sã filosofia de Custodia. As trez senhoras, convictas de que a velha era servida de favores do alto e sempre mais ou menos inspirada, attentavam religiosamente no que ella dizia. A menina desafogava-se da oppressão, respirando pelo desabafo da criada. Innocencio guardava um silencio que tanto podia considerar-se summo siso como supina toleima.

Quebrados os impetos da colera, Gervasio José abriu uma porta de entrada para um armazem de geropigas, e disse ao filho:

—Anda comigo, rapaz.