A este tempo, Rosa estava tocando no piano a musica do «Ponha aqui o seu pésinho» renovada com o apparecimento do drama «Pedro Sem», joia literaria que ainda rebrilha no palco do Palacio de cristal, revesada com Ignez de Castro em quanto o progresso não abranger Manuel Mendes Enxundia. Tocava, porém, de raivosa a menina.

A mãe d’ella, que já andava moirejando no enchoval, soffreu um insulto nervoso, e passou o dia a beber chá de valeriana.

O jantar correu sombrio e taciturno, deixando apenas ouvir o mascar da numerosa familia e caixeiros. Tudo estava perdido, afóra o estomago.

Magnanimo e inquebrantavel animo tinha aquella Rosa! Quem a visse na representação do «Fayel» quinze dias depois, radiosa de guapas fitas que lhe serpeavam dos opulentos cabellos por sobre os modelados hombros, cuidaria que era ella a noiva de Innocencio de Barros, e não aquell’outra senhora melancolica do camarote fronteiro.

Tinha sido Gervasio quem comprára o bilhete, ao outro dia da chegada do filho, afim de espairecer o tristonho aspecto de toda a sua familia. No camarote, estavam elle e a senhora, Thomazia e o esposo, as duas irmãs e os dois irmãos, acamados e dispostos d’esta ordem: na frente as duas Thomazias e Gervasio; na camada intermedia Jeronimo, Sebastiana e Innocencio; na terceira e ultima Felizardo e Florencia.

Trajava a noiva modestamente vestido de seda sobre o escuro. Os enfeites do cabello eram o ouro da côr d’elle. O peitilho de cambraia, afogado, só ao perto deixava ver que era menos alvo que as espaduas de jaspe lisas e brunidas. Se a tristeza realçasse sempre matizes de formosura, a esposa de Innocencio José de Barros, n’aquella noite, poderia gloriar-se de ser invejada das senhoras e lastimada dos rapazes, por conta de tal marido.

A familia do senhor Barcellos da Praça Nova entrou mais tarde no camarote.

Rosa pendurou a capa sem desfitar os olhos de Thomazia. Sentou-se, segredou, surrindo-se, aos irmãos a visinhança que tinham, e, sacudidas as crinas de fitas, travou do binoculo e encarou no brasileiro Andraens, que a comprimentou da platéa, curvando-se quanto a barriga lhe outorgou. Não ha para que fallar mais n’este brasileiro Andraens. Veiu aqui para desmentir o fanqueiro da Praça Nova, receioso de que lhe faltassem brasileiros á filha.

Innocencio viu Rosa. Palpitou-lhe o coração como saco aneurismatico. Lancetavam-lh’o saudades, saudades como ellas são e pungem quando o nunca mais vem com ellas. Nunca lhe parecéra bonita senão então a Rosinha. Uns modos acanhados de innocencia boçal que d’antes tivera a moça, transfiguraram-se em meneios graciosamente desenvoltos, sem desaire de pouco senhoris, um certo desembaraço afidalgado que Innocencio via nas damas de raça, e desejaria ver nas raparigas da sua roda. Tendencias ao sublime, não vulgares em sujeitos da sua laia.

Como estivesse inquieto, o esposo de Thomazia saiu do camarote e passeou nos corredores. O pae, assim que o pano se levantou, saiu a chamar o filho.