«E tu, filho...

—Recebi o raio na cabeça, e sahi com o receio de cahir morto aos pés do homem que confiava a sorte de sua filha á minha generosidade. Isto parece-me um sonho...{177} Quando eu me convencer completamente que perdi a minha Leocadia, morro n'esse instante. E que espero eu agora, meu Deus!

A mãi de Vasco, com a barba apoiada na palma da mão direita, contemplava seu filho a olhos enxutos. Calara-se elle; e longo tempo silenciosa, e como em spasmo, ainda ella o contemplava. Por fim, ergue-se, vai com impeto ao pé de Vasco, aperta-lhe a mão com força, e diz:

«Acredita, filho, o que te diz uma mulher que conhece o coração das outras: Leocadia não é digna d'esse amor; Leocadia não te ama.

Vasco ergueu-se d'um pulo, vibrou ainda as primeiras syllabas d'uma palavra dura, levou a mão á fronte que revia um suor subito, e disse com pausa e brandura:

—Minha mãi, peça perdão a Deus de ter injuriado uma martyr.

E as lagrimas rebentaram ao mesmo tempo dos olhos de ambos. A solemnidade triste com que elle se queixára da injusta opinião, feriu o seio da mãi.

«Pois sim, meu filho, eu peço perdão a Deus de ter calumniado a tua amiga; e pedir-lhe-hei tambem que me tire d'este mundo se não posso valer-vos a ambos, meus queridos filhos.

Vasco, arrebatado pela compunção d'estas ultimas palavras, beijou com fervor a mão da lagrimosa senhora, que o tomou para o seio, e o beijou na face.

«Nosso Senhor, e a Virgem Santissima—dizia ella, quasi ao ouvido de Vasco, como quem acarinha uma criança—hão-de dar-te uma esposa que seja o retrato das virtudes de Leocadia, meu filho. São poucos n'este mundo os corações bons; mas a Providencia faz que esses corações se encontrem. Ha-de vir um procurar-te, Vasco; e, quando elle vier, teremos ambos prevenido tudo, para que tu possas ter uma esposa sem dote. Eu começo desde hoje a pedir para ti um emprego digno do teu nascimento. Empenharei{178} todas as minhas relações, todos os nossos parentes, com a regente, para tu seres bem collocado, sim, meu filho?