—Não, minha senhora, não. V. exc.ª disse-me que iriamos para o campo; vamos quanto antes; parece-me que hei-de acabar lá mais tranquillamente. Veja quanto eu estou sendo infeliz! A unica esperança que me afaga, é a idéa de morrer n'um leito d'onde veja arvores, e céo, e flores. O tempo agora está bello para acabar assim...
«Oh filho, que me estás despedaçando o coração...
—Pois não fallemos em morrer... Olhe, mãi, diz-me uma cousa?
«Que é, Vasco?
—Porque duvidava ha pouco do amor de Leocadia? Que disse eu, ou que fez ella que désse causa á injusta suspeita de minha mãi?
«Eu respondo, meu filho. Parecia-me que ella recebeu com frieza a noticia d'ir ser casada com um homem que não amava. O que tu estás soffrendo, é o que ella deveria soffrer, depois d'essa cruel violencia que o pai lhe fez. A paixão costuma mostrar-se d'outro modo, delira, é capaz de mil desatinos, em quanto dura a surpreza que Leocadia devia de receber. E que fez ella, meu filho? Que te disse ella, depois que o pai lhe disse: «não pódes ser esposa de Vasco, porque Vasco é pobre; sel-o-has d'um outro homem, que eu te destinei, sem consultar a tua vontade.» Que fez ella?
—O que fez ella?—respondeu Vasco, desafogando sob o peso das accusações, que a mãi queria alliviar com a entonação branda da voz—O que fez ella?... Minha mãi... o que faria a senhora nas circumstancias de Leocadia?
«Se amasse com a paixão ardente com que amei teu pai... das duas uma: morreria fulminada logo alli, ou...
—Diga, diga, minha mãi, que eu preciso avaliar pelo seu coração o amor de Leocadia.{179}
«Direi, Vasco, direi o que mãi nenhuma deve dizer; mas o que eu faria, não morrendo logo alli, meu filho, era... desobedecer á tyrannia, fugir á violencia d'uma desgraça perpetua, seguir o destino prospero ou desgraçado do homem que me merecesse o sacrificio da minha reputação, da minha vida, de tudo!»