A mãi de Vasco teria quarenta e cinco annos. A luz dos trinta irradiou-se-lhe no semblante. Dir-se-hia que o coração, rejuvenescido das forças que a viuvez e os dissabores domesticos alquebraram, revivera alguns minutos, apressando o giro do sangue que lá estivera estanque por falta d'estimulos. Vasco, fitava maravilhado a animação d'aquelle rosto, onde nunca vira o viço da adolescencia, porque, desde menino, vira n'elle sempre lagrimas.

«Porque a mulher que ama—continuou ella, erguendo intencionalmente os olhos para o retracto de seu marido—porque a mulher que ama como eu amei teu pai, Vasco, faz o que fez tua mãi. Foge do convento onde a aferrolharam, e vai sósinha através cincoenta leguas procurar um militar que nesse tempo apenas cingia uma banda de alferes, e não tinha mais recursos para si e para mim que o seu soldo. Eu era filha unica, devia ser uma rica herdeira; e, comtudo, soffri necessidades durante dez annos. E sabes tu como eu acceitava das mãos de Deus a minha sorte? Cheia de alegria, seguindo teu pai na bagagem do exercito, pela França, pela Russia, com teu irmão mais velho deitado n'um berço de vêrga. Quando a força da lei me fez succeder na minha legitima, dir-te-hei, filho, que não senti melhorar a minha felicidade intima. Não era o dinheiro que a fazia, não; maior contentamento tinha quando via as feridas de teu pai remuneradas de patente em patente, até ser eu que, por minhas proprias mãos, lhe puz as dragonas de general, tendo elle apenas trinta e nove annos. Alli o tens a ouvir-nos, meu filho. Parece que lhe estou vendo ainda os olhos rasos de lagrimas{180} de felicidade com que elle tantas vezes me contemplava. Repara filho...

Trémula da commoção, que devia terminar pelo chorar angustioso da saudade, a arrebatada senhora conduziu seu filho pela mão ao pé do retracto.

Tinha melancolica bellesa aquelle grupo! Ella, apontando para o retracto, com o braço erguido e convulsivo, dizia:

«Aquelle homem deve estar na presença de Deus. Foi para todo o mundo o que foi para mim. As suas vistas devem estar postas no teu destino, Vasco. Entrega a tua sorte á sua protecção; pede-lhe, commigo, que implore ao Senhor o descanço do teu espirito, e o esquecimento da mulher que não é para ti o que tua mãi foi para elle.

—Não posso fazer similhante supplica...—interrompeu Vasco.

«Não podes, filho? por que não podes?

—Rogar assim era mentir a Deus. Leocadia é para mim o que minha mãi foi para o homem que a fez desobedecer á vontade de seu pai.

E, tirando do bolso a carta de Leocadia, apresentou-a aberta a sua mãi.

Subiu de novo á face da viuva o ardor que as lagrimas começavam a desmaiar. Leu e re-leu a carta; dobrou-a vagarosamente; fitou um olhar supplicante no retracto, declinou-o para um crucifixo; permaneceu silenciosa em oração, talvez; entregou a carta a Vasco, e disse-lhe com energia: