—Pois se quer entrar, eu dou parte á snr.ª D. Maria.
«Como!?—exclamei eu—a snr.ª D. Maria Maldonado?!
—Sim, minha senhora, está aqui com o snr. Vasco—disse-me elle—e o snr. Vasco vai dar contas a Deus brevemente.
«Meu Deus! eu não posso lembrar-me do que então disse ou fiz. Entrei n'uma tremura de susto, de terror, de não sei que tormento novo para mim. Conheci que me fugia o entendimento, e a vista. Queria tirar-me d'alli, e não podia; ainda pedi a mão a Thereza, e já não pude dar passada. Desfalleci nos braços d'ella.
«Voltando á vida, que a justiça de Deus não quiz levar-me, achei-me sentada n'um banco de pedra, n'um jardim. Ao pé de mim estava D. Maria. Fiz um esforço por ajoelhar-me aos pés d'ella. Susteve-me; e chorava, meu Deus, como chorava a pobre senhora!
«É a vontade de Deus... disse-lhe eu, que aqui me trouxe. Queria vêl-o, minha querida mãi, diga-lhe que a mão do Senhor me conduziu aqui para receber o seu perdão... Mas eu não sou culpada... Meu pai estava a expirar... Morreria atormentado...» Ai... eu não sei o que{208} disse, entre gemidos... D. Maria olhava-me com ar de compaixão, e consultava os olhos do padre. Este acenava negativamente. Não queria que eu visse Vasco... E eu estava de joelhos aos pés de D. Maria, quando ouvi proferir o meu nome, n'um grito. Olhei... era Vasco, abrindo uma vidraça. Era elle, livido como um espectro vestido de branco, com os olhos abrasados de delirio... A janella cahiu, Vasco desappareceu, e o padre subiu a correr umas escadas, em quanto D. Maria sustinha o meu arrebatamento. «Deixe-me, deixe-me vêl-o!» rogava eu, allucinada, louca de paixão, capaz de matar-me alli, se me não deixassem ir!
«Ao cimo da escadaria, o padre encontrou-se com Vasco. Não o conteve; desceram ambos atropelladamente. E o meu infeliz anjo exclamou: «Vieste para mim, minha esposa?... Eu esperava-te, esperava-te, como se espera a salvação.»
«E eu rompi n'um choro que era sentir-me morrer. O desgraçado não sabia que eu estava casada!
—Falla, falla!—gritava elle—vens ser minha esposa? fugiste a teu pai? esse tyranno teve compaixão de nós?—Cala-te, meu filho!—exclamava D. Maria... Estás enganado! «Enganado! pois esta não é a minha esposa?!»
«O padre tomou-o pelo braço, e exclamou: