O dinheiro commercial não lisongeava o fidalgo; todavia, esta repugnancia pôde vencel-a o amor.
Casou, e não se póde dizer se tractou bem ou mal sua esposa. Estas differenças são as mulheres que as notam, e Leocadia recebia com tedio disfarçado as amabilidades de seu marido.
Para o não detestar, tinha sempre entre si e elle a imagem de seu pai moribundo, e o crucifixo do juramento.
Leocadia habituára-se a viver fóra do seu corpo... A alma voava livre onde a chamava a saudade; a materia era a victima sacrificada. Deste modo, affazer-se-hia ao captiveiro, sem sondar a indole d'um homem que a chamava sua.
O traço, porém, mais caracteristico da indole romanesca de Francisco de Proença, vai descobril-o um infeliz acontecimento.{211}
Quando Leocadia sahia, encostada ao braço do capellão, o portal da quinta dos Maldonados, Francisco de Proença, vindo da caça, atravessava a azinhaga, assobiando aos perdigueiros.
Leocadia presente-o, e quer esconder-se; mas era tarde. Proença pára estupefacto, e Leocadia pára tambem. O fidalgo, que não conhecia o padre, interroga-o:
«Quem é o senhor?! Como se acha aqui a senhora?!
O padre tartamudeou:
—Eu sou capellão d'esta casa.