Que fôsse possivel existir quem nesse asylo da mendicidade que é, em Lisbôa, a chamada «roda» dos intelectuaes, estalactites de café, onde a sua inteligencia, uma vez ou outra condescendia em aparecer, talvez para se documentar sobre não sei que humoristica compilação dos usos e costumes dos fósseis,—que fôsse possivel existir quem, entre os +superiores e idealistas+, dispensasse +la poésie+ nas 24 horas chloroticas ou congestivas do dia-a-dia, eis contra que Santa Rita protestava com as mais agudas das suas interjeições, agitando em elypses de mófa os longos dedos piciolados de violinista tisico, os seus dedos de bôa linhagem, cheios de expressão, vozeantes d'alma, feitos, como os de Jean Lorrain, para o ritual luminico das joias…
E nada mais divertido do que assistir então aos esforços dos sapos tentando alcandorar-se aos cimos em que o meu querido pintor goticisava vôos. Inestimaveis melharucos de sonetos lusitanos, poedôres mecanicos de versos coloristas, mais ignorantes do que cavalariços, querendo vêr no analfabetismo a marca da originalidade e com desdens de guardas-portões pelos que estudam; prosadores de noticias d'annos; pinturrécos sem paleta, que enchem os +godets+, quando muito de anilina; rodins de farinha triga, que quando fazem +bonzos+ pretendem que os aceitêmos como +bronzes+ e quando contornam musculos sugerem apenas meias-gravidezes… ah, como toda esta companha de surdos-mudos do espirito, se não adergava convencê-lo de que não dispensava +o tal ideal+, tirava depois a feminil vingança, tratando-o de maluco e de lunatico, em conciliabulos de mastins!
«Guilherme de Santa Rita estudou em Paris como pensionista do Estado», tagarela um ganimedes de +folha d'alface+.
Parabens, seu compadre!
Deixou Santa Rita, como pintor, alguma obra de peso, um consideravel quadro, uma insexual +pochade+, a famosa maquina pictural, em summa, de horroroso estylo +pompier+, que tanto repugnava á sua apurada estesia e para cuja execução o Estado o pensionava?
Não, amigos. De resto, dispersava força neurica demais em projectos maravilhosos, em concepções imprevistas, em imaginações faúlhantes para poder materialisar o que projectava, o que concebia, o que imaginava.
Diz ali, na minha estante, o +Homem de genio obscuro+, de Fialho: «Entre a intrepidez dos meus ideaes artisticos e a mesquinharia dos meus recursos picturaes, ha um abysmo de impotencia de que não quero dar prova aos meus contemporaneos.+»
E ouço a voz de Oscar Wilde, seu vizinho de prateleira, a responder-lhe, com esse gesto de desencanto apolineo, tão perverso, que punha azas de grifo no lirismo azul dos seus olhos: «Voulez-vous savoir, dear, le grand drame de ma vie?—C'est que j'ai mis mon génie dans ma vie; je n'ai mis que mon talent dans mes uvres+».
O seu culto entusiastico por +essa coisa a que se chama para ahi o futurismo+!
Encantadoras irreverencias da inepcia!