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Uma noite, na +brasserie+ do Largo de Santa Justa, esperavamos ambos, com duas conservadoras chavenas de café, ver surgir a silhueta eminentemente caracteristica do Fernando Pessôa, em que se justapõem e quase se intersécionam bem inequivocas reminiscencias da velha Mademoiselle, da +Germinie Lacerteux e do Adrien Sixte, de Bourget.
Santa Rita, fixos em mim, anciosamente, os seus olhos de pedra preciosa, tinha-me revelado já a sua adoração pelo futurista hespanhol Picassso; esse Bonaparte da +réclame+, grande industrial do Genio; de Severini, de Boccioni, de Russolo, do seu admiravel quadro +A Revolta+, verdadeira epopeia paroxistica do Movimento, toda em +linhas-forças+ de uma intensidade jamais egualada, de Robert Delaunay e das suas +planches+ tão ruivamente +réussies+; das predilecções futuristas, evidentes no ultimo livro d'essa bacchante scénica de D'Annunzio, +Forse che si, forse che no+, duma fantasia rica de tapete d'Oriente… Eu, que lêra na vespera os +manifestos+ de Marinetti, extasiava-me ante a frase celebre, archetypica desse rapsôdo presciente do +Hoje+ dinamico da Arte: «Um automovel de aluguel é mais formoso que a +Victoria de Samotracia+.»
Mas Fernando Pessôa não aparecia a dar-nos o +bonbon fondant da sua conversa, tão eleganciada de flexuosidades mentaes, perspectivando ceus typhicos de inauditismos, como a dum Walter Pater que praticasse a horoscopia…
Já na despedida:—até ámanhã—, um de nós lançou o nome de Paul Cézanne, o +precursor+ odiado e vilependiado.
Meu pobre Santa Rita!
Neste momento em que tento em vão, com a greda das palavras, esculpir o teu perfil na memoria dos que te estimaram e procuro, para o completar, na galeria dolorosa dos teus Antepassados do Pincel, um equivalente do teu espirito e da tua emoção,—é o nome de Paul Cézanne que pronuncio. Como elle, Christo resignado do insuccesso, vêjo-te morrendo, na ante-manhã da existencia, entre os chascos vermelhos da canalha.
Maio de 1918.
+Carlos Parreira.+